Alexandra Martins/Divulgação
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'Antes da Chuva' chama a atenção no Cena Contemporânea de Brasília

Espetáculo da cia. Cortejo, da pequena cidade de Três Rios (RJ) é um dos acertos do festival internacional de teatro

Maria Eugênia de Menezes - Brasília, O Estado de S. Paulo

26 de agosto de 2013 | 19h16

Uma história ao contrário.Para conseguir fazer teatro, o diretor Rodrigo Portella decidiu empreender um percurso na contramão do senso comum. Abandonou o Rio de Janeiro – metrópole que é um dos eixos da produção nacional de artes cênicas – e resolveu refugiar-se em Três Rios, uma cidade de 70 mil habitantes no interior fluminense. “Sentia que, no Rio, a oferta era tanta que se perdia um pouco o foco. Todo mundo estava sempre à espera de que algo acontecesse, um projeto, um convite”, diz ele. “De repente, percebi que Três Rios poderia me dar a oportunidade de construir um grupo: havia um teatro bem equipado, tempo e um grande envolvimento da população.”

O resultado dessa aposta é o espetáculo Antes da Chuva, um dos acertos do Cena Contemporânea 2013 – festival internacional de teatro de Brasília, que ocorre até o dia 2. Desde que estreou, timidamente, na programação paralela do festival de Curitiba, em abril, a peça da iniciante Cia. Cortejo tem conseguido chamar a atenção. Mesmo correndo por fora e sem grande alarde, foi uma das surpresas do tradicional evento paranaense. Depois disso, já passou por Belo Horizonte e abre, no dia 9, temporada no Sesc Copacabana, no Rio. “Não vou dizer que foi fácil”, comenta o diretor, que divide a encenação com Léo Marvet. “Existe, sim, um preconceito com quem vem do interior. Mas está funcionando.”

Antes da Chuva trata do encontro de dois personagens: um menino e uma adolescente, alguns anos mais velha que ele, que vivem em um decadente povoado. Escrita pelo próprio Portella, a obra toma como apoio algumas referências literárias: o livro O Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel García Márquez – em que um jovem experimenta uma persistente devoção por uma mulher casada –, e o romance O Leitor, de Bernhard Schlink – que mostra a relação entre dois amantes mediada pela leitura de livros. Mas a dramaturgia também embaralha episódios da história familiar dos atores e da população de Três Rios: reminiscências de amores fracassados, de desilusões, abandonos e esperas intermináveis. “Antes de fazer a peça, percorremos várias pequenas cidades da América Latina. E encontramos muito mais semelhanças que diferenças. Existe algo em comum em todas elas: a vida que se organiza em torno de uma praça, a precariedade dos serviços, as relações sociais.”

Presenciar a afeição desmedida do protagonista por sua namorada de infância certamente tem apelo junto ao público. Mas a montagem se sustenta, sobretudo, pela forma com a qual o grupo entrega essa trama. O texto impõe sobreposições de narrativas e tempos verbais. Os personagens falam do passado como se falassem do presente (ou vice-versa). Flutuam entre a primeira e a terceira pessoa. Estão sempre a contar uma história dentro da outra.

Outro aspecto que salta aos olhos é a simplicidade da produção. “Queria trabalhar com um grupo pequeno”, observa Portella, indicado por seu trabalho anterior, Uma História Oficial, ao Prêmio Shell de melhor direção. “Pensei em uma peça sem cenário, sem efeitos, que me permitisse estabelecer uma relação muito próxima com os atores.” De fato, há apenas dois intérpretes na obra (Bruna Portella e Luan Vieira) e tudo o que se vê em cena decorre deles.

A dupla desdobra-se para fazer os outros personagens. Alcança a proeza de evocar dezenas de imagens – um universo inteiro – a partir de um palco completamente nu. Em seu despojamento, é como se Antes da Chuva recuperasse certo sentido de artesanato que o teatro perdeu, solapado pelos recursos de grandes produções e adesões às novas tecnologias.

À sede no interior e ao desejo de simplicidade também se une a maneira particular com que essa cia. gerencia seus recursos. O espetáculo apresentado em Brasília foi erguido sem qualquer patrocínio ou recurso incentivado. Eles juntaram o dinheiro que conseguiram com as apresentações de outra criação. Também realizam atividades paralelas em Três Rios – cursos, oficinas e a curadoria de um festival – para conseguir se manter. “No Rio, eu seria apenas mais um. Nessa cidade, posso fazer a diferença”, crê Portella.

 

A repórter viajou a convite do Festival Cena Contemporânea

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