Tetê Viviane/Futura Press
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Ignácio de Loyola Brandão
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Ânsia que refaz e alegra

'Mudar faz bem, excita, anima. Você tem de se refazer, reaprender. '

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2021 | 03h00

Minha terceira mudança neste jornal. A partir de agora, estarei aqui aos domingos, ao lado de Karnal e Hatoum. Bem acompanhado, dizem no interior. Comecei aos domingos no caderno Cidades, passei para as sextas-feiras no Caderno 2. E finalmente migrei para o Na Quarentena. Mudar faz bem, excita, anima. Você tem de se refazer, reaprender. 

Até os 21 anos, morei na mesma casa em Araraquara. Durante uma reforma nos instalamos numa casinha chinfrim, provisória. Depois voltamos e foi novo ciclo. Desde que vim para São Paulo até hoje, fiz 19 mudanças de pensão para pensão, casa de amigo, apartamento alugado, apartamento meu. Mudei duas vezes de país e de língua, Itália e Alemanha. Desde o início da Folha Ferroviária de Araraquara, do Lázaro Rocha Camargo, figura esquecida, mudei 12 vezes de jornal e revista. Primeira vez na vida que faço tal censo. Nem sei por que faço. O que sei é que mudar sempre me fez bem. Me fez sair da rotina, reaprender. 

Quando deixei jornal diário, o Última Hora, e fui para revista mensal, redescobri o que era final de semana livre. Nove anos trabalhei todos os dias, e não sei quantas noites. Mas adorava. Saí de Claudia, revista feminina, pioneira em alguns assuntos que muito se discutem hoje, virgindade, drogas, sexo antes do casamento (durante a ditadura), para mergulhar nos assuntos fascinantes da Planeta, dos universos paralelos, alquimistas, filosofias orientais, vida em outros planetas, Krishnamurti, Aurobindo, umbanda, poder da mente, existência das fadas. 

Agora, outra fase. Espaço mais curto. Aprender a condensar histórias. Não ao ponto de um e-mail ou um Twitter. Enxugar o texto, usar palavras para dizer, não para enfeitar, como aconselhava Graciliano Ramos, cujo filho Ricardo tanto me ensinou em jornal. 

Em 1957, deixando Araraquara, a caminho da estação ferroviária em um carro de aluguel, meu pai me disse: “Fiquei a vida toda em um trabalho no qual fiz carreira, fui bem-sucedido. Mas se puder, meu filho, mude às vezes. Viva sensações diferentes, sinta medo e o desafio do novo, do diferente. Obrigue-se a se recarregar sempre. Fui feliz no que fiz. Cresci, criei vocês. A vida é mais do que isso. Mas houve manhãs em que saí de casa pensando em largar tudo, mudar, sair da mesmice, que às vezes pesava e tornava o dia arrastado”. 

Chego a esta idade vendo que me multipliquei algumas vezes e que, na literatura – principalmente na crônica –, um dia jamais deve ser igual ao outro, é preciso se redescobrir a cada instante. Ânsia que me faz e refaz e alegra.

*Ignácio de Loyola Brandão é jornalista e escritor, autor de Zero e Não Verás País Nenhum

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