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Ano que vai, ano que vem

No elevador, o Ano Que Vai deseja boa sorte ao Ano Que Vem. De perto, eles são tão parecidos

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2021 | 05h00

Com quantos “a gente se vê” você construiu mais esse Ano Que Vai? De que altura o Ano Que Vai fez você pular desta vez? Foi no vazio? O paraquedas não abriu? Aliás, tinha paraquedas? Você se machucou? 

O Ano Que Vai estendeu a mão em sinal de compaixão? Ou você ficou por lá, meio desacordado, sangrando no meio fio e pensando que a vida é assim mesmo: uns tombos, uns golpes, umas hemorragias e uns ossos quebrados?

Da marca do pênalti, quantos chutes foram dados para fora do gol? Quantas esperanças foram parar fora do estádio? O Ano Que Vai foi um perna de pau? O Ano Que Vai decepcionou a torcida ou fez valer o investimento?

O Ano Que Vai deixou alguma marca ou só serviu para acumular quinquilharias, traquitanas e frustrações? O Ano Que Vai foi um beijo no rosto ou um tapa na cara? O Ano Que Vai deixou algum contato ou saiu de fininho, pulando a janela do quarto?

E o Ano Que Vem? Ele trouxe uma escova de dentes? Na gaveta de meias, o Ano Que Vem já acomodou suas roupas de malhar? Ele ronca ou tem bafo de déjà vu pela manhã?

O Ano Que Vem tem uma carta de intenções? Trouxe currículo? Você acredita? Ou ele é como os outros? Digo, igual aos outros quarenta e tantos que você já viveu?

O Ano Que Vem já fez aquele pix ? Ou está contando moedinhas? O Ano Que Vem vai ser no débito ou no crédito? Vai ter festa, carnaval e oba-oba no Ano Que Vem? Ou vai ser tal qual o Ano Que Vai?

De quantos pecados, de quantos deliveries, de quantos erros de conexão ou copinhos americanos de cerveja estamos falando? Quanto disso tudo o Ano Que Vem aguenta? Valeu a pena, o Ano Que Vai?

Até ontem, era o Ano Que Vai equilibrando pratinhos, contando suas mentiras, lavando máscaras na pia da minha cozinha. Agora, sintonizo o radinho de pilha no Ano Que Vem.

Ainda não entendo o que ele está me dizendo. Que língua estranha! Quantas coisas não ditas ou ditas pela metade. O Ano Que Vem tem seu próprio idioma. Em compensação, o Ano Que Vai já disse tudo o que tinha para dizer.

No elevador, o Ano Que Vai deseja boa sorte ao Ano Que Vem. De perto, eles são tão parecidos. Muitos diriam que são como irmãos siameses, almas gêmeas, clones, cara de um ou o focinho do outro. Ou pior: farinhas do mesmo saco.

Ano Que Vai não se incomoda com as semelhanças. Já o Ano Que Vem não se sente tão confortável com as comparações. Ele promete deixar crescer um bigode ou radicalizar no corte de cabelo. 

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