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Ano novo

Espero que a rotina em 2019 seja impedir a sabotagem do Brasil pelos seus dirigentes

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

02 Janeiro 2019 | 02h00

Queridos leitores,

Vocês aturam a realidade pública do Brasil tal como ela é postada nos jornais que a reproduzem. Como eu faço parte deles, vocês – sabendo ou não, gostando ou não – me suportam no duplo sentido dessa palavra.

Nesta primeira quarta-feira de 2019 – esse “tempo” batizado como um “novo ano”, eu gostaria de ter a serenidade e a inteligência, bem como o talento, para lhes apresentar algo novo e belo. Mas estou como um velho carro sem gasolina. Um automóvel que anda porque a idade avançada é como uma ladeira: ela não tem outro caminho, senão o da descida. Ela carrega o peso das experiências vividas e, no meu caso, o exercício persistente de tentar entrar no mistério da vida. Entretanto, quanto mais eu acho que posso caminhar, mais as tonelagens da vida me arrastam para o chão.

Tinha um texto pronto, mas, num domingo ensolarado e quente, a sua leitura o transformou num sermão. E eu penso que o papel de um cronista pode ser melhor quando ele procura aliviar o leitor dos penosos afazeres dos jornalistas profissionais. O cronista tem a liberdade, mas não tem a incrível memória do profissional, nem possui licença para comentar ou fabricar a pauta do momento. E a pauta do Brasil sempre foi desconfiar do Brasil, denunciar o governo, separar quase sempre mal, o País da sociedade, da cultura e conjunto de valores e que são igualmente seus protagonistas. 

De fato, o Brasil não é movido pelos recorrentes X, Y e Z e pela multidão de políticos e administradores de todos os calibres, que assassinaram parte de nossa esperança se corrompendo. Foi também a “corrupção” como um sistema e um valor que os seduziu. O amor, o ódio, a ambição, a maldade e, no nosso caso, uma mortal má-fé generalizada e até mesmo inconsciente, são simultaneamente protagonistas. Os valores nos atingem tanto ou ainda mais do que as pessoas e, por isso, eu desconfio sempre dos receituários e dos seus doutores. Afinal é você quem fala português ou é o justo oposto: o português é quem fala por nós?

No nosso caso, houve uma ligadura singular entre partidos políticos e malandros. O resultado é esse doloroso banimento pela Justiça, confirmado pelo voto, de muitos atores. Atores que desmereceram, desonraram e traíram seus cargos ou papéis. Espero que este novo ano seja o começo de um outro teatro. De uma rotina destinada a impedir a sabotagem do Brasil pelos seus dirigentes. Que o novo teatro público espantado pelos jornais possa tornar o nosso país digno de si mesmo.

Em algumas línguas não se diz que fulano é um traidor, diz-se que “a traição” ou, no nosso caso, “a corrupção” o fez roubar e trair.

Como protagonista, reitero que esses valores ganham o mesmo peso das pessoas. É isso que explica de um lado a sua recorrência e, do outro, a ausência mais absoluta de culpa de quem os praticou. Revelar os seus limites, punindo os seduzidos com o apoio claro do povo e democraticamente é um sinal de mudança inovadora. 

Um dos meus mestres afirmava que o mal do Brasil dera o “bom-mocismo”, o deixar passar, o recorrer e a ausência de decidir diante do escândalo porque não fica bem reclamar. 

Novas realidades exigem transformações e no seu centro está a questão da igualdade de todos perante seus atos em consonância com o esforço doloroso da desmontagem de um sistema no qual o Estado suga como um senhor de engenho e a sociedade como escrava.

*

O tempo é o senhor da vida. Não sei se algum animal tem noção do tempo. Como eles vivem com o que são e morrer como nascem, eles não têm consciência de destino porque sua percepção está tolhida por uma programação biológica inexorável. No nosso caso, porém, há linguagem articulada e normas que chegam de fora e permitem escapar do mero biológico naquilo que chamamos de “vida”. Temos, conforme dizia o velho Freud, um mistério chamado consciência. Essa máquina de produção de fantasias que não nos deixa em paz e nos afeta incessantemente, parando somente quando experimentamos a morte no sono ou no caixão. 

Essa consciência demanda normas e valores porque entregue a si mesma, ela não sobrevive à angústia de não saber quem é e, desse modo, viver correndo o risco da alienação da ignorância. Não temos um órgão para medir o tempo, esse senhor da vida que concede e nega desejos; e reina absoluto fabricando humano.

Todos seremos esquecidos e um pouco lembrados nas preces e sobretudo na música que, com sua liquidez harmoniosa, liga a Terra com o céu e, ao lado do amor vivido como a esperança, nos afasta do nada.

Feliz 2019 para você que me privilegia com sua leitura.

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