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Ano novo?

Em 2016, não será fácil ‘arrumar’ este Brasil do qual sabemos mais do que queremos

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2015 | 02h00

Chega o ano novo (do calendário) e eu me sinto mais velho do que nunca. E o nunca é uma palavra pesada por que – além de predispor quem a usa ao traiçoeiro cacófato (veja-se, o trivial e horrível “nunca ganha”) – ela se refere a um tempo sem tempo...

O fato, porém, é que o menino dentro de mim tem que segurar esses incríveis dois milênios, uma década e seis anos. E o menino é também um velho – ou um ‘jovem de idade’ como me diz um bondoso geriatra – e está tão alarmado quanto esperançoso. Já tivemos passagens mais auspiciosas e menos vexatórias.

O novo ano, que era sempre “bom”, tornou-se duvidoso. Todas as previsões econométricas e éticas dizem que ele vai ser um ano ruim. Mas como festejar um “mau ano” na virada protocolar com a qual marcamos o tempo, dividimos eras e, mais uma vez, tentamos cortar a água?

Revolvi calendários de muitas crises – suicídio de Vargas, golpe militar, ditadura, ato institucional, prisões por motivos políticos, ódios partidários irremissíveis, discussões acaloradas permeadas de bofetes, hiperinflação e roubalheiras com macumba presidencial – e eis que muitos desses supostos antigos brasileirismos estão nas nossas costas neste ambíguo e novíssimo 2016.

Posso fugir do espaço, mas não posso me evadir do tempo. E para aumentar minhas ansiedades, inauguramos um belíssimo Museu do Amanhã justo num momento em que o amanhã ensolarado do progresso, da solução de problemas recorrentes e de um Brasil mais justo, administrado com mais rigor e honestidade, sumiu de todos nós.

Em 2016, não será fácil “arrumar” este nosso Brasil do qual sabemos mais do que queremos. A retrospectiva é tenebrosa.

Jamais vi em toda a minha vida um desmanche tão grande do drama político nacional. Jamais fui espectador de tantos atores medíocres, tentando fazer o papel público que lhes cabia desempenhar e, em pleno ato, desabando pela mais completa ausência de sinceridade diante do papel. A presidente, por exemplo, não consegue acertar as falas nem quando as lê!

Não se assiste a tal desastre sem pedir de volta o dinheiro da entrada. Imagine a cena: o presidente da Câmara, sério e de olho na câmera, diz não ter conta na Suíça. Dias depois, a procuradoria suíça o desmente. O presidente nega mentira dita em tempo real. Uma lógica idêntica enquadra o presidente do Senado, o qual fala como um pároco moralista, quando se sabe que ele próprio deve explicações à República. Mas, muito pior que isso, é aguentar a recapitulação da roubalheira planejada e consentida da Petrobrás. Um roubo inédito do governo roubando a si mesmo.

E nisso vai a conta dos generosos empréstimos do BNDES ao Sr. Bumlai, amigo do peito do ex-presidente Lula, um cara que tinha entrada livre no Palácio. Um amigo de fé, mas com o qual Lula somente falava de coisas banais e impessoais. Nem futebol Bumlai discutia com Lula o qual, como informante da polícia, afirma que a Petrobrás era controlada pelo famoso “guerreiro do povo brasileiro”, José Dirceu. Herói injustamente condenado que, contudo, teve a imaginação e a capacidade para ganhar mais do que nós recebemos em todas as nossas vidas, enquanto estava mais embrulhado com a lei do que presente de Natal. Dentro em breve, porém, uma boa nova no novo ano circula que ele será indultado.

No Brasil, sempre valeu o axioma do “aos inimigos a lei; aos amigos, tudo!”. Menos, é claro, para o ex-presidente Lula, para a presidenta Dilma e para os petistas graduados. Entre eles, não cabe esse lema político que tem fabricado a história do Brasil e explicado o País mais do que a fábula da tal “revolução burguesa”. Revolução, aliás, com burguesia, mas sem os burgueses de Maupassant, Balzac e Flaubert.

Vamos entrar em 2016 com a República nos devendo muito. Sobretudo no que tange ao equilíbrio delicado entre Executivo, Legislativo e Judiciário, pois o que testemunhamos é o alto risco de um total desequilíbrio entre esses poderes. Isso para não falar da Procuradoria-Geral da República e da Polícia Federal.

Mesmo não sendo pessimista, eu sei que devemos todos passar por um sério momento de reconstrução da honestidade e do sentido de dever neste ano de 2016. Caso contrário, morremos civicamente.

De um lado, tudo retorna, mas volta como farsa, conforme se gosta de repetir, mas como densa tragédia; do outro, tudo vai ser novo e cristalino, porque assim exigimos. E nisso está, espero, o espírito de 2016.

Feliz ano novo!

Em 2016, não será fácil ‘arrumar’ este Brasil do qual sabemos mais do que queremos. 

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