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'Annus Mirabilis'

Como não pensar em 2020 como outro ano horribilis? Chegamos ao fim com amálgama de crise econômica, política e pandemia. A morte ronda muitas casas.

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2020 | 03h00

A série The Crown (Peter Morgan) trouxe a rainha Elizabeth II de novo à memória coletiva. Vendo a quarta temporada, pensei no ano de 1992. A longeva chefe de Estado definiu como Annus Horribilis. Por quê? Seu filho Andrew se separou. A princesa Anne seguiu o mesmo rumo pouco depois. Um parente da monarca se suicidou. O herdeiro do trono (Charles) e Lady Di chegaram aos jornais com escândalos extraconjugais e acabaram, igualmente, acertando um divórcio. Para arrematar com drama flamejante a sucessão de horrores, o amado castelo de Windsor pegou fogo. Ninguém criticaria a soberana por achar aquele ano horrível, tenebroso, pavoroso, medonho...

Como não pensar em 2020 como outro ano horribilis? Chegamos ao fim com amálgama de crise econômica, política e pandemia. A morte ronda muitas casas. O medo se espalhou com uma nova onda. Explosão trágica em Beirute, Olimpíada adiada, intoxicação com cerveja em Minas Gerais, crise da água no Rio de Janeiro, episódios de racismo e de violência nos EUA e no Brasil, Amazônia e Pantanal pegando fogo. Querem mais? A Disney, que já foi até das “domésticas” (modo irônico on...), agora exclui até patroas com o dólar na estratosfera. Pior: na maior parte do ano, sendo milionária ou diarista, todas foram impedidas de felicidade na montanha-russa por causa da pandemia. Há agitações em Belarus. A Armênia viveu uma guerra relâmpago com o Azerbaijão, suspensa por enquanto. Em 2020, fecharam os olhos em definitivo o filósofo conservador Roger Scruton e o bispo símbolo da esquerda, Casaldáliga. Choros à destra e à sinistra. Faleceram artistas importantes: Kenny Rogers, o talentoso Flávio Migliaccio e também o grande Cecil Thiré. 2020 enterrou nossa musa da beleza: a eterna Martha Rocha. A “menina crítica”, Mafalda, perdeu seu pai: Quino. Foi-se o empoderado Chadwick Boseman e nem foi poupado o próprio 007, Sean Connery. Vitórias das forças do mal, capazes de vencer até o mestre delas: finou-se o Zé do Caixão. Em resumo, foi um ano horribilíssimo. Saudades de 1992...

Seria possível, quase que por encanto, pensar em 2020 como um ano admirável, maravilhoso e muito marcante? Como passar do horribilis para o mirabilis? Em primeiro lugar: apesar de ser uma verdade que sempre podemos piorar, não parece ser o caso. Há vacinas à vista e discretas melhorias econômicas. Mesmo com os riscos, é inegável o salto da medicina em um ano de muito aprendizado. Há cuidados a tomar, porém parece que já saímos do fundo do poço. Ou não...

A dor ensina. Se assim foi, aprendemos muito. A rainha Elizabeth II, da série The Crown, vai crescendo à medida que encara as dificuldades com o marido, com os filhos, a irmã e com seus governados. Em um mundo como o nosso, povoado de fotos lindas de redes sociais, construímos a suprema fantasia de anos felizes, obrigatoriamente felizes, de uma felicidade teatral e, convenhamos, cafona. Todos os momentos são terríveis e admiráveis. Todo ano encerra sua cor, suas sementes, seu calvário e sua redenção. A primeira e a segunda temporadas da série tinham a atriz Claire Foy. A terceira e a quarta mudaram para Olivia Colman. Para cada etapa, terrível ou maravilhosa, um rosto específico e marcante. 

A dor de um momento ilumina o seguinte. Nossas feridas podem despertar nossas forças. Viemos ao mundo sem manual de instruções e vamos escrevendo de forma sistemática. O livro de Jó, que tanto fala do sofrimento, tem um esquema consolador: felicidade, infelicidade pelas perdas (materiais, familiares e de saúde), felicidade redobrada. Os três momentos são claros e possuem um divisor de crescimento: os discursos entre Jó, Deus, esposa e amigos. Ali existe uma consciência que cresce sobre o papel e o desafio na fronteira do tolerável. No último discurso, Jó anuncia a Deus: “Antes eu te conhecia só por ouvir falar, porém agora eu te vejo com os meus próprios olhos”(Jó, 42,5). O que deu a Jó a dimensão e consciência de um plano maior foi a dor, aquela que emoldura a felicidade, divide momentos, aumenta a consciência e, no fundo, é uma parteira inversa de toda alegria. 

Espero que o estimado leitor e a querida leitora tenham acompanhado o argumento da crônica de fim de ano. 2020 foi muito ruim. 2021 tem potencial para ser melhor, como o Renascimento após a Peste Negra. Desejo não uma semana feliz, mas um grande, um extraordinário ano novo. Será mirabilis, exatamente, pela existência do anterior. Pode ser de felicidade porque sua memória é 2020. O novo ano traz a marca de experiências complexas, terríveis, desafiadoras, com cicatrizes. É um desejo carregado de votos positivos para superar o que já passamos. O relógio e o calendário avançam com ou sem esperança. Estamos acima da pedra impotente e abaixo de forças absolutas. Nesse pequeno planeta que dividimos com a rainha Elizabeth, nessa quase véspera de ano novo, lá vamos nós de novo para o ciclo de Jó. Feliz Ano Novo! Feliz futuro! Felicidades na nova etapa da montanha-russa com ou sem Disney. Erga os braços e grite. Apenas uma concessão ao pensamento mágico: evite repetir a roupa do réveillon de 2019/2020. Não vamos arriscar... Na série da nossa vida a gente não troca de personagem em nova temporada, todavia somos veteranos com novos roteiros e chances.

*É HISTORIADOR E ESCRITOR, AUTOR  

DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’,  

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