Steve Mccurry/Magnum/Divulgação
Steve Mccurry/Magnum/Divulgação

Anne Rice em busca de uma nova cosmologia

Autora de Entrevista com o Vampiro que vem para a Bienal do Rio pretende agora escrever ficção científica

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2011 | 00h00

Entrevista  Anne Rice

A escritora Anne Rice utiliza dois computadores em sua bela casa, em New Orleans, Estados Unidos: um para o trabalho, outro para responder a e-mails. Conhecida mundialmente desde 1976, quando lançou Entrevista com o Vampiro, em que humanizou a clássica criatura das trevas, Anne tem uma legião de fãs, especialmente no Brasil, todos ansiosos por encontrá-la na 15.ª Bienal do Livro do Rio de Janeiro, que começa hoje, no Riocentro.

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Anne construiu sua carreira a partir da fé: dos vampiros e bruxas, pulou para o cristianismo, recontando partes da vida de Jesus; e dali abraçou a causa dos anjos, personagem de seu mais recente livro, De Amor e Maldade. Por telefone, ela conversou com o Estado.

De Amor e Maldade é a segunda parte de uma série, Songs of Seraphin. Além disso, o que a motivou a escrever esse livro?

Durante muito tempo, eu queria escrever sobre anjos e, quando tive a ideia de um vindo para a Terra e tentando recuperar um homem ruim, Toby, um assassino, precisei de um certo tempo até descobrir o tom certo. Feito isso, iniciei essa trilogia que vai terminar com o último livro, que já estou produzindo. Fiquei fascinada com essa ideia de unir homens e anjos, de promover viagens entre o século 20 e a Idade Média. Foi algo que me permitiu não apenas trabalhar com o presente mas também com a inserção desse presente na história da humanidade.

A senhora mudou radicalmente sua vida ao se tornar uma devota católica, há alguns anos. Em seguida, renunciou a qualquer religião organizada e deixou a Igreja. Nessa transição da fé, como se passou a mudança de vampiros e bruxas até passar a escrever sobre anjos?

Bem, sempre vivi jornadas espirituais - mesmo na fase ateísta, escrevi sobre Deus, diabo, a dicotomia entre o bem e o mal, questões sobre fé. Até nos livros sobre vampiros, esses assuntos eram tratados. Na verdade, minhas tramas são mais complexas que as tradicionais histórias de ação, pois envolvem questões cósmicas como a relação entre o homem e Deus. Assim, essa trilogia surge como uma forma mais elevada de continuar sobre esse assunto. Quando guiei minha fé para a religião católica, fui capaz de escrever como Jesus Cristo e sobre Ele também. Foi uma experiência fascinante, mas se resumiu a dois livros, pois não consegui avançar sobre controvérsias teológicas como os ensinamentos de Jesus, as diferenças entre protestantes e católicos. Por isso, preferi me fixar em um momento específico da juventude de Cristo, pois é pouco conhecido - há muitos livros e filmes sobre o nascimento e a crucificação. Respondendo à sua pergunta, sempre foi uma jornada. E, mesmo tendo abandonado uma religião organizada, minha fé em Deus é inabalável, é o centro da minha vida. Mas meu texto fica mais poderoso quando escrevo sobre outros personagens além de anjos, ou seja, vampiros, bruxas, seres sobrenaturais. Graças a eles, consigo respostas para as questões cósmicas que me rodeiam.

Seria impossível, então, na sua opinião, escrever uma história de vampiro sem algum aspecto religioso?

Essa é a ideia, mas muitos autores escrevem sobre vampiros hoje em dia. São histórias alegres, que apenas entretêm sem oferecer algo mais profundo. Mas, mesmo esses livros populares como Crepúsculo propõem questões como "por que estou nesse planeta?". Meus vampiros eram metáforas para os forasteiros, os perdidos, os errantes na escuridão que se lembravam do calor da luz de Deus, mas não conseguiam encontrá-lo. Daí essas tramas serem tão poderosas e atraentes. E, por isso, acredito ser impossível desvincular aspectos religiosos.

A senhora pretende voltar a escrever sobre vampiros?

Bem, se voltar, serão novos personagens e uma nova cosmologia - certamente não retomarei Lestat ou Louis. Escrevi 12 livros com esses personagens, já é suficiente. Sei que há mais de um autor que escreve diversas séries sobre vampiros, mas esse assunto não me interessa mais. No futuro, pretendo tentar algo de ficção científica envolvendo uma nova cosmologia e que seja diferente do que temos hoje em dia.

Qual foi seu livro mais difícil de escrever?

Provavelmente Cristo Senhor - O Caminho para Caná. Escrever sobre Jesus já crescido foi um desafio pois eu queria explorar a humanidade de alguém que é o Filho de Deus. Foi difícil caminhar sobre essa fronteira sem perder o tom realista ao mostrar com correção as lágrimas e o suor de um ser tão magnânimo. Mas todos meus romances exigiram uma certa dose de dor e aplicação para serem escritos. Se não for assim, o resultado é ruim.

A senhora já esteve no Brasil, em 1996, o que inspirou a escrita de Violino. Pode acontecer o mesmo agora?

Não sei, pode ser. Nos anos 1990, minha viagem pelo Rio e Amazônia foi realmente poderosa, voltei com uma bela coleção de santos. Claro que minha expectativa é grande, meus leitores brasileiros enviam muitos e-mails e acredito que terei outra grande experiência. Quem sabe não rende mais um livro...

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