Anna Maria Maiolino a toda

É um ano agitado para a artista, que além da 29ª Bienal, faz mostras internacionais e lança livro

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2010 | 00h00

"Preciso respirar", diz, sorrindo e com olhos fixos, Anna Maria Maiolino, em seu ateliê na Pompeia. Aos 68 anos, a artista se vê num momento especial de sua carreira: neste mesmo ano, depois de ter realizado mostra com vídeos e uma instalação escultórica no Camden Arts Centre de Londres, ela está presente, com obras de peso, em duas exposições do Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York (Mind and Matter: Alternative Abstractions, que termina dia 16, e On Line, que será aberta em novembro).

Tem mais ainda: Anna Maria prepara uma grande retrospectiva de sua produção, a ser inaugurada em 15 de outubro na Fundação Tàpies de Barcelona (Espanha); uma instalação inédita para a Fundação Eva Klabin do Rio; e é uma das criadoras consagradas a figurar na 29.ª Bienal de São Paulo, a partir de setembro, com obras políticas das décadas de 1970 e 80.

"A obra de arte só existe quando é vista, quando tem o outro, o espectador. Se ninguém a conhece, se ela não se comunica, perde a sua função primeira, que é a função social", afirma Anna Maria.

Nessa razão simples cabem ainda as publicações, como meios importantes de exibição de criadores e de seus pensamentos e de análises de suas obras. Nesse sentido, a artista ainda estará em mais duas "exposições": no livro Anna Maria Maiolino - Order and Subjectivity (Editora Pharos, 200 págs., R$ 90, apenas em inglês), que ela lança no próximo dia 5, às 20 horas, na Galeria Millan (que a representa) e em edição (brasileira, pela Cobogó, segundo a artista) e estrangeira a ser feita a partir de sua retrospectiva na Fundação Tàpies, com curadoria de Helena Tatay - depois a mostra viajará para a Santiago de Compostela (Espanha) e para a Suécia.

Projeção. O livro Order and Subjectivity (Ordem e Subjetividade)é fruto da mostra de mesmo título que a artista exibiu em 2007 no Pharos Centre for Contemporary Art de Nicosia, em Chipre, ilha mediterrânea. "Foi uma seleção do curador Michael Asbury de trabalhos dos anos 1970, filmes super-8 da mesma década, desenhos e instalação de argila", ela conta.

Toda essa confluência de exibições internacionais de Anna Maria Maiolino representa, na verdade, a reverberação da projeção de sua produção a partir de um marco, como ela identifica, da exposição A Life Line/Vida Afora, apresentada em 2002 no Drawing Center de Nova York e com curadoria de Catherine de Zegher.

"Foi essa mostra antológica que fez meu trabalho ser visto lá fora e começar a circular a minha obra", define Anna Maria. Entretanto, mais que projeção pela realização de uma antologia, como a retrospectiva que já exibiu em 2005 na Pinacoteca do Estado e em 2006 no Miami Art Central, nos EUA, o processo de revisão de uma trajetória de mais de 40 anos é uma possibilidade de autorreflexão. "É um desgaste muito psicológico por estar se revendo", afirma Anna Maria, que vê a partir da década de 1990 o amadurecimento em sua carreira.

Plural. Anna Maria Maiolino nasceu na Itália, em 1942, filha de pai italiano e de mãe equatoriana. Em 1954, sua família se mudou para a Venezuela - e até hoje a artista conserva certo sotaque espanhol em sua fala -, até, em 1960 ela se transferir para o Rio de Janeiro - naturalizou-se brasileira em 1968. Na década de 1960 - cursou na cidade carioca a Escola Nacional de Belas Artes -, a artista participou dos movimentos de seu tempo: do grupo da Nova Figuração - integrou as emblemáticas mostras Opinião 66 e Nova Objetividade Brasileira (1967) - e esteve próxima de Hélio Oiticica e Lygia Clark; com a arte conceitual, o concretismo, a gravura, as novas mídias - com o vídeo e o filme super-8, na década de 1970, contemplou a possibilidade de trabalhar com liberdade na ditadura, como ela diz em passagem de Order and Subjectivity. "Eu sou o bolo fecal resultado do banquete antropofágico brasileiro: tornamo-nos Tupis eu e minha obra", já escreveu a artista.

Dentro de uma obra plural, de curiosidade em torno de linguagens tão distintas e de diálogo entre a ordem e a motivação emocional ou afetiva, Anna Maria Maiolino encontrou no fazer com as mãos, na criação de formas com argila - repetitivas e acumuladas - e nos desenhos "sobre" e "em" papel, "uma posição consciente" em sua obra, na década de 1990. "Sem dúvida, os anos 1980 foram para mim uma época de grande crise. Quando comecei o trabalho com acúmulos de formas na escultura moldada e nas instalações, era de certa maneira o querer driblar a pulverização da arte contemporânea. Me apegar ao gesto da mão que trabalha, sempre permanente e primordial, era querer me segurar, encontrar um caminho de restauro. Tornou-se um trabalho solitário e ensimesmado, creio que um salto qualitativo em meu trabalho", diz a artista, completando que vê na arte contemporânea "uma abertura para entender o mundo como um todo e para as pequenas coisas".

Na 29.ª Bienal de São Paulo, Anna Maria Maiolino foi convidada a exibir obras criadas em contexto político ditatorial e de resistência, trabalhos emblemáticos como as instalações Arroz e Feijão (1979) e Solitário e Paciência (1976) e as fotografias Por um Fio (1976) e Picolo Mondo (1982). "Depois de uma Bienal do Vazio (2008), entendi por que foram para o político: quando você está perdido, você volta para o ser humano, a si mesmo, e o ser humano não é além de mais nada um ser político, ele e os outros."

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