Anjos (e demônios) de Charlie

Baterista assume influência de Kenny Clarke e diz não ver diferença entre tocar com os Stones e jazz

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2012 | 03h08

O Brasil não é apenas um cartão-postal distante para Charlie Watts. Na autobiografia dos Stones, According to the Rolling Stones, publicada em 2003, ele faz declarações em épocas diferentes com diversas menções ao País.

"Mick começou a tocar muita guitarra. Ele toca a guitarra de um jeito estranho; toca, sobre tudo, com uma batida parecida com a dos violonistas brasileiros", diz Charlie Watts, sobre o colega Mick Taylor (que foi guitarrista dos Stones logo que Brian Jones morreu, em 1969, e deixou a banda 5 anos depois). "Tenho um percussionista brasileiro em minha banda, e é maravilhoso. Você só diz: 'É algo mais ou menos como um samba ou algo assim', e ele toca. É fantástico", acrescenta, mais à frente.

O tempo com Charlie ao telefone foi curto, cerca de 15 minutos, e ele não é exatamente muito paciente, embora não seja também grosseiro. Podia retribuir um pouco do que o seu grupo Boogie Woogie pede no palco com uma música chamada More Sympathy for the Drummer. Mas deu para dar uma palhinha do que virá por aí.

Você tem planos de vir ao Brasil de novo com sua banda de jazz?

Seria adorável fazer uma turnê por aí de novo.

Mas não é só você decidir que quer vir?

É muito fácil você dizer "pode vir". Tem de ter alguém que diga: "Venha e toque, nós fazemos a logística." A banda A, B, C & D of Boogie Woogie não é minha, eu só toco nela. Então, tem de acertar também com os outros caras.

O boogie-woogie é um ritmo orientado pelo piano, muito comum no Sul dos Estados Unidos, na música de Dr. John, Henry Gray...

Na verdade, é de Chicago. Há muita gente tocando isso em New Orleans, no Texas, por todo lugar, mas foi forjado a partir do trabalho de caras como Pete Johnson, Meade Lux Lewis, Albert Ammons. Essa é a origem do suingue. New Orleans também tem, mas é diferente, é outro suingue.

Há canções, entre as que estão no seu disco, que foram gravadas por Big Joe Turner, Louis Armstrong, Blind Blake. Como vocês as escolheram?

Bem, nós tocamos nesse clube em Paris durante uma semana. Nunca ensaiamos previamente, sempre fomos para o palco e fomos tocando. De tudo que tocamos, escolheram essas 14 canções. Então foi apenas uma compilação das melhores performances, mas o espectro musical era bem amplo.

Mas como vocês escolhem as coisas para tocar? Ouvem gravações originais desses pioneiros?

Conheço todas essas gravações, não ouço nada. Louis Armstrong gravou St. Louis Blues, mas Chuck Berry também gravou. Conheço as gravações, mas no palco nós apenas vamos na nossa própria levada. Nós só tocamos, não temos material original nem composições. É uma diversão.

Mas você não tem a ambição de dar uma leitura diferente a isso tudo?

Não. Eu só me divirto. É música de diversão, música de suingue. É o que é. Não há nenhuma diferença na forma como tocamos e na forma como Big Joe Turner e os outros tocavam, apenas o nosso tempero.

Como baterista de rock, é unânime que você é um dos originadores, um pioneiro. Como baterista de jazz, entretanto, você é mais influenciado do que influenciador. Quem o influenciou? Elvin Jones foi um deles?

Claro, Elvin Jones era fenomenal. E também Roy Haynes. Mas sou mais influenciado por outros caras, como Kenny Clarke.

E qual a diferença de tocar boogie-woogie com jazzistas e depois sair em turnê com os Stones?

Não há diferença. Apenas os tempos e as épocas são diferentes. E essa é uma banda acústica.

Os Stones estão celebrando 50 anos este ano. O que está sendo planejado para comemorar?

Nós vamos celebrar no ano que vem. Entrei no grupo em 2 de janeiro, então nós consideramos que essa é a data dos 50 anos. A noite do Marquee foi a gravação de um show de rádio, e a banda era a de Alexis Korner, com quem eu já tinha tocado. Tinha também o Brian Jones, com quem eu tocara um ano antes. Então, era um embrião do grupo, que só foi se estruturar ao longo do ano. Nós consideramos que o dia 2 de janeiro de 1963 é a data de fundação da banda. Não sei ainda se faremos uma turnê no ano que vem, isso não foi decidido ainda. Mas você não deveria fazer perguntas sobre os Stones, estou aqui para falar do nosso disco de jazz.

Bem, falando de jazz, como foi tocar Get Your Kicks on (Route 66), gravada por gente tão diferente quanto Jerry Lee Lewis, The Cramps e outros? Qual é a inspiração?

Bom, Nat King Cole foi o primeiro a gravar a música. E eu amo Nat. Foi um dos grandes da música. Ele certamente foi a principal inspiração. Você já acabou? Podemos encerrar?

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