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Anjos do mal

Eles existem e se refugiaram na internet onde uma mentira mil vezes clicada pode virar verdade

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

20 Janeiro 2018 | 02h00

Na segunda semana de janeiro, um vídeo com Steven Pinker causou rebuliço na internet. 

Psicólogo, linguista, neurocientista e professor em Harvard, Pinker tornou-se um dos mais conhecidos vulgarizadores da ciência e um dos mais respeitados intelectuais públicos do Ocidente. Nascido no Canadá e naturalizado americano, produz livros de montão: Do Que É Feito o Pensamento, Como a Mente Funciona e Os Anjos Bons da Nossa Natureza, os mais lidos aqui. Não escondo que foi sua militância em defesa dos animais que me levou à leitura de seus ensaios na New York Review of Books.

Ao rebuliço:

No tal vídeo, gravado dois meses antes durante um evento organizado pela Harvard e a revista eletrônica britânica Spiked, Pinker aludia às pessoas inteligentes, de bom nível intelectual e bambas na internet que gravitam na extrema-direita. Viralizou instantaneamente. A direita delirou e soltou fogos; as esquerdas espumaram.

O site neonazista Daily Stormer estampou um artigo, perversamente intitulado Professor judeu de Harvard admite que a extrema-direita tem razão em tudo. No Twitter, uma postagem do autodenominado “RightWing Rabble-Rouser” (Demagogo de direita) Alex Witoslawski infeccionou a rede de retuítes solidários, um deles timbrado pelo líder dos supremacistas brancos, Richard Spencer. 

“Pinker, queridinho dos supremacistas, devolveu a deferência”, detonou o jornalista da esquerda alternativa Ben Norton. O biólogo e blogueiro de tendência liberal PZ Myers repisou a atoarda: Pinker seria um cupincha dos reacionários.

Ponto para a extrema-direita. Pretendia indispor Pinker com seus aliados naturais (liberais, progressistas e quem mais abomine o que lá chamam de alt-right), e conseguiu. E conseguiu porque, conforme revelou Jesse Singal, do New York Times, Norton, Myers e outros “aliados naturais” de Pinker não assistiram ao vídeo completo, e atentamente, até fim. Caíram como patinhos na trampa do inimigo.

Pinker de fato destacou a existência de intelectuais de direita inteligentes e diligentes nas mídias sociais, mas em momento algum disse concordar com eles. Ao contrário, lamentou que muitos deles se utilizem das redes sociais para, sem o menor pudor, manipular informações, disseminar notícias falsas (vulgo “fake news”) e fomentar preconceitos racistas, xenófobos e homofóbicos. Nunca poderia imaginar que estivesse ele próprio protagonizando mais um caso de manipulação - e das mais grosseiras. Este é o novo padrão. O truísmo de Goebbels atualizado à era digital: uma mentira mil vezes clicada pode virar verdade na internet.

Para executar o grosso desse serviço sujo, entregue à anonímia de robôs digitais (ou bots), emprega-se um exército de trombadinhas virtuais, em geral moleques fissurados em esporte e videogames que criam falsos perfis nas redes sociais, utilizando imagens de pessoas surrupiadas a esmo do Instagram e fontes que tais - e, covardemente ocultos atrás deles, agridem, espalham boatos, difamam, invadem contas alheias e cometem as mais inomináveis ignomínias.

Com todo tipo de objetivo. Desde picaretagens como aquela falsa ONG para ajudar crianças subnutridas da Venezuela, criada pelo gaúcho Jonatan Diniz no fim do ano passado, a crimes de falsidade ideológica ou que outro nome tenha o que um casal protegido por pseudônimos (um deles escancarado, Ampulhetadeagua) cometeu com o ator Selton Mello, invadindo sua página no Facebook e no Instagram para xingá-lo de pedófilo, misógino e machista. Há dias uma atriz trans de reality shows, conhecida como Rebekah Shelton, cortou um dobrado para desmentir sua morte, espalhada na internet por alguém que invadira sua conta numa rede social.

O tom veemente e agressivo das postagens é uma bandeira. Nomes visivelmente falsos e avatar capcioso (uma figura desenhada em computador, personagem de quadrinhos, celebridade do show business ou escudo de algum time de futebol) são indícios quase infalíveis de logro. Os mais despudorados ilustram os perfis com fotos de casais (sorridentes, não raro numa praia) e, para aumentar-lhes a credibilidade, pespegam-lhes atributos supostamente virtuosos mas na verdade profundamente farisaicos. 

Aprendi a me proteger desses visigodos no Twitter (não frequento o Facebook nem o showroom de narcisistas em que se transformou o Instagram) da seguinte maneira: ao menor sinal de suspeita, vai-se à página do intruso, para tirar uma chinfra de suas postagens e examinar-lhe o currículo e o número de seguidores (os bots mais fuleiros, até porque forjados aos borbotões, não possuem mais de meia dúzia, provavelmente falsos), aplicando-lhe em seguida um purificante bloqueio. 

Se dependesse da vontade de Lúcia Guimarães, o inventor do botão “mute” ganharia o Nobel da Paz. Bem o merece. Mas sou mais o botão “block”, a pena capital, a ultima ratio, o Detefon do Twitter. Há que se fazer justiça com os próprios dígitos nas redes sociais, sem o risco de um habeas corpus concedido por Gilmar Mendes; em nossas contas nós somos o Supremo Tribunal. O “mute” é um cala-boca, um xô!, um repelão virtual. O bloqueio é a defenestração inapelável.

Em seu livro mais polêmico, Os Anjos Bons da Nossa Natureza, traduzido pela Cia. das Letras, Pinker defende a tese de que, apesar das impressões em contrário, a humanidade estaria se tornando cada vez mais pacífica. Com tantas evidências corroborando as impressões, chego a desconfiar que os anjos maus da nossa natureza não só existem como se refugiaram na internet.

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