Anjos da fraude

Abriu-se um leque de aplicativos cuja finalidade é facilitar encontros amorosos ou exclusivamente sexuais. Pode ser a derrocada ou o renascimento da humanidade. Sofremos uma mutação para hedonistas de desejos incompletos jamais satisfeitos. Nos esbaldaremos de outros no bandejão do amor, no Uber do Prazer.

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

02 Julho 2016 | 02h00

Já estão entre nós casais que nasceram graças ao Tinder, aplicativo que une parceiros pela proximidade estabelecida, cardápio com 250 milhões de usuários teoricamente solteiros, e ao Happn, que faz o “match” de acordo com os caminhos cruzados pelos usuários.

Há outros como Flert, DateMe, POF, Badoo e até o Match. O mercado de oferta e procura se aplica na magia do smartphone. Twoo, Namoro On, ParPerfeito são ou tentam agregar, porque muitas vezes a demanda é que define o perfil de um site, românticos.

Bang With Your Frieds (transar com seus amigos), em que se descobre aquela amizade que pode ir muito além do primeiro gole, chegou a ser excluído de lojas virtuais, por ter um nome pesado, sem sutilezas, e trazer situações constrangedoras, como sugerir a vovó ou a motorista da van dos filhos, na lista de “friends” da rede social, “pegáveis”. Foi banido e voltou com outro nome, DOWN.

Mas e os casados? Colocar-se publicamente em redes virtuais que o(a) cliente quer passar a perna naquela(e) com quem prometeu ficar junto na alegria e na tristeza é um risco. Se descoberto, dá em divórcio com justa causa e barraco virtual público.

Inventaram um site pago, Ashley Madison, segundo seu anúncio, O Maior Site de Traição do Mundo, gigante que abocanhou concorrentes, fez propagandas para a TV nos Estados Unidos e quase nomeou um estádio. Se é pago, diferentemente dos aplicativos anteriores, não é para aventureiros.

A Avid Life Media, dona do site, teve mais de US$ 100 milhões em receita em 2014. Um detalhe escandaloso é que o site cobrava para usuários arrependidos apagarem perfis, numa operação de chantagem ao estilo Famiglia Corleone, que em nada lembra o mundo sonhado por Steve Jobs. Derrubar cercas virtuais parece um negócio tão lucrativo como construir.

Mas um vazamento no ano passado praticado por hackers do grupo Impact Team revelou mais do que nomes. Revelou dados. Que quando caem na rede, jornalistas investigativos fazem a festa. O que descobriu o site de tecnologia Gizmodo deveria levar muitos executivos para o banco de réus.

Ao se pesquisar e contabilizar o banco de dados do Ashley Madison, perguntamos se tudo ali não passava de uma “fraude deliberada”. Em 2015, eram 37 milhões de perfis de pessoas procurando experiências extraconjugais. Mas apenas 12 mil mulheres eram ativas no site. Outras 5,5 milhões de mulheres cadastradas criaram perfis, arrependeram-se e abandonaram o site. Ou era tudo fake?

Os 31,5 milhões de homens cadastrados disputavam a atenção de apenas 12 mil mulheres. Enquanto 20 milhões de homens checavam suas mensagens, apenas 1.500 mulheres checavam as delas.

Há duas semanas, recebi um e-mail anunciando uma promoção do site grátis. Criei um perfil com o primeiro nome de um galã grisalho de cinema, sexy e militante em causas tibetanas. Vi então que ninguém ali estava para brincadeira; muitos perfis sem fotos, aparentemente falsos, com descrições e fantasias criadas pelo próprio site. Se eu quisesse ver fotos de mais detalhes da “paquera”, devia pedir uma chave da sua galeria privada e ceder a minha.

Foi então que quase caí da cadeira. Enquanto meu galã se propunha papear, ouvir corações aflitos, se mostrar sensível, carinhoso, para quem sabe confortar com sua sabedoria oriental uma mulher madura, carente, todas elas me mostravam fotos de biquíni provocativas, em poses esdrúxulas, lambendo os beiços exageradamente, oferecendo a carne.

O amador ali era o meu galã, que a cada clique gastava seus créditos. Eu nem sabia como começar a trocar mensagens. Na primeira tentativa, perguntei a um perfil: “Você é fácil encontrar?”. A reposta foi enigmática: “Que tipo de pergunta é essa?”.

Era um bronca? Que tipo de pergunta é essa... Claro que sim, claro que não, mostra aí partes da carne, não vem com papinho...? Que tipo de pergunta é essa? Era uma bronca.

Fiz um filtro de gente que mora num raio de 30 quilômetros da minha casa. Recebi mensagens de RS, MG, São José do Rio Preto, Córdoba, até da Califórnia. Voltava à configuração do perfil. Inútil. Robôs me mandavam mensagens, fotos, piscadas, presentes e broncas. Para prosseguir, teria que comprar créditos!

Washington Post descobriu que empresas criavam perfis falsos, chamados de “anjos”, pessoas que trabalhavam à exaustão. Seduziam a clientela masculina, que passava os dados do cartão acreditando que viveria uma aventura extraconjugal, mas gastaria um baita tempo no computador, às escondidas, sentindo a adrenalina do proibido por todo o corpo, encontrando prazer na possibilidade que poderia alcançar o que não existe.

Ashley Madison tinha seus anjos espalhados pelo mundo. Vazou um e-mail enviado em 2013, da diretora de operações internas, Nora Abtan, a outros gerentes e ao CEO, Noel Biderman. Assunto, “resumo do status de anjos”. A mensagem enumerava a quantidade de anjos trabalhando. Só na Índia, eram 500 anjos, 298 com fotos.

A equipe tinha gente no Japão, Holanda, Portugal, Hong Kong. Num outro e-mail com o assunto “criador de perfis”, o CEO perguntava se deviam contratar mais empresas para a elaboração de mais perfis.

Gizmodo lembra que Biderman disse numa entrevista à Bloomberg que seria focado em atrair mulheres, do nome às cores. Claro que elas estão lá. Algumas me mandaram fotos, chave de sua galeria, encantadas pelo cabelo grisalho e jeitão zen do meu perfil, honestamente seduzidas pela possibilidade de traição. Mas, na boa. Vai a um bar com amigos que você se diverte mais.

Apaguei o perfil do meu galã zen. Sem problemas, aparentemente.

 

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