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Humberto Werneck
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Animador sem desânimo

Poucos dias antes de morrer, há quase dois anos, Antonio Maschio fez chegar a mim um recado: precisava falar comigo, fosse vê-lo no hospital. O chamado me pegou num desses momentos em que a vida fica atravancada por inadiáveis miudezas – das quais ainda não me havia livrado quando, em 21 de outubro, veio a pior notícia. 

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

15 de setembro de 2015 | 02h00

O que teria aquele incansável agitador de boas causas para me dizer na derradeira cama de hospital? Estivera internado muitas vezes, e sempre se safara. Fazia anos que adoecera, de males pesados e cumulativos, mas nunca me pedira que o fosse ver. Talvez quisesse, vendo o tempo se estreitar, me pedir de novo que escrevesse a sua história. Não cheguei a lhe dizer sim, porém não descartava a ideia, quando menos pelo belo assunto que era a vida de Antonio Maschio.

A inadimplência afetiva ainda me pesa, mas me consola pensar que, sem uma última conversa, no ambiente asséptico de um hospital, sob o aflitivo piscar dos sinais vitais declinantes, nossa amizade não teve um arremate. Melhor assim. Na vida real como na ficção, prefiro histórias sem arremates que as venham lacrar inapelavelmente, para que possam, em sustenido, sobreviver ao ponto final. 

Tanto tempo depois, segue operante a corrente do afeto que nos uniu, nutrida desde então pela memória e por impulsos externos. O mais recente é o livro Antonio Maschio Fugiu de Seu Destino, no qual Margarida Cintra Gordinho consolidou escritos que nosso amigo comum (ou melhor, incomum) deixou alinhavados. “Fugiu de seu destino”? Ao seu destino é que não. Nascido em família pobre, filho de pai ausente e brutal, Maschio desde cedo ralou – ajudante em abatedouro de frango, engraxate, vendedor de rosas em porta de bar (aonde nunca pôde entrar) e de naftalina no Viaduto do Chá, operador de máquina de assar frango, bancário –, antes de descobrir-se o visceral “animador e festeiro” que seria até morrer, aos 66 anos.

Não me lembro quando foi que vi pela primeira vez a figura gorducha e sorridente, não raro gargalhante, de Antonio Maschio, numa das redações onde trabalhei e que ele frequentava para divulgar peraltices culturais. Tinha abandonado o sonho de ser poeta e uma breve carreira de ator, da qual saiu levando um Prêmio Molière. O palco talvez fosse pequeno para quem precisava atuar em toda parte. 

Em dado momento, Maschio juntou-se ao jornalista Wladimir Soares e com ele criou sua obra maior, o Spazio Pirandello, bar e restaurante que foi também antiquário, casa de leilões e galeria de arte. Bem mais que isso, na verdade. Num casarão octogenário da rua Augusta, o Pirandello abriu em 7 de janeiro de 1980 e durante uma década ferveu como point inigualável de gente interessante e interessada, escritores, artistas, jornalistas, publicitários, políticos. FHC, antes de ser sigla, dava sopa no Pira. Não me lembro de Lula lá, mas não faltavam próceres do ainda virginal PT, fundado um mês depois do Pirandello. Foi ali que Maschio e o editor Caio Graco Prado tiveram a ideia do amarelo que vestiria a Campanha das Diretas. Polo de vanguardas comportamentais, a casa abrigou, ainda sob a ditadura militar, ousadias como uma exposição de nus masculinos, entre eles Caetano Veloso, clicados por Vania Toledo. Na Sexta-feira Santa, servia uma consagrada Sopa de Hóstia.

Quando a festa arrefeceu, no final de 1989, Maschio se mandou para Tiradentes, e ali, ao lado de Paulo Soares, seu vitalício companheiro Paulinho, viveu por 12 anos. Sossegou? Nada: inventava modas como o Festival de Gastronomia de Tiradentes. 

De volta a São Paulo, em 2002, Maschio atuou no Memorial da América Latina, na Secretaria Estadual da Cultura e na Imprensa Oficial. Com leilões de arte que organizava, ajudou alimentar o cofre de campanhas do PSDB – partido pelo qual tentara eleger-se vereador. 

Quando um feixe de doenças o pôs fora de combate, passou por dificuldades e precisou promover leilões, agora em causa própria, e aos poucos viu esvaziar-se seu apartamento das preciosidades que amorosamente acumulara. 

Ali estive com ele um sem número de vezes, e em muitas ocasiões o encontrei prostrado. Mas não vencido. Nos piores momentos, fazia planos – e me pergunto se Antonio Maschio, ao me pedir que fosse vê-lo no hospital, não tinha em mente mais uma das esplêndidas novidades com que pavimentou o seu caminho.

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