Animação política

Em Uma História de Amor e Fúria, Luís Bolognesi vai do passado ao futuro para discutir o Brasil atual

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2013 | 02h13

Como ficção, Uma História de Amor e Fúria começa em 1500, com a luta dos tupinambás contra os colonizadores portugueses. Segue para o século 19 acompanhando a Balaiada. Avança para 1968 no embate entre estudantes e a repressão da ditadura militar. Termina no futuro, em 2096, quando a água é a mais cara commodity do mundo e o Brasil detém as maiores reservas do bem precioso. São 600 anos de história, que, na realidade, consumiram cerca de dez anos para chegar à tela. Amor e Fúria começou a nascer logo após Bicho de Sete Cabeças, que Luiz Bolognesi escreveu para sua mulher, a diretora Laís Bodanzky. Havia sido tão difícil concretizar a adaptação do livro de Austregésilo Carrano. No "mercado", ninguém queria falar de um filme sobre drogas, loucura, choques elétricos. E Luis comunicou à mulher que queria fazer uma animação contando a história do Brasil.

"Uma animação? Mas o Brasil não tem tradição nesse tipo de filme", ponderou Laís. Nem por isso ela tentou dissuadir o companheiro e o amparou, apesar do tamanho da encrenca. Foram três anos de roteiro e viabilização, mais seis para formatar e concluir o desenho. "Sempre gostei de história do Brasil e de graphic novels. Amor e Fúria mistura as duas para contar uma história não oficial, de resistência." É o que tem ajudado o filme a fazer carreira em importantes festivais internacionais, após o sucesso de suas exibições no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo. Em Utrecht, na Holanda, a Veneza da animação, Bolognesi ouviu de uma senhora que alguma coisa da mitologia tupinambá que compõe a história ela podia não entender, mas a resistência era um tema universal e emocionante. Em Miami, o filme foi aplaudido de pé e lá mesmo recebeu o convite para ser apresentado em junho, ao ar livre, no Central Park, em Nova York.

No meio do caminho, surgiram investidores canadenses dispostos a investir um bom dinheiro no projeto. Mas achavam o filme brasileiro demais. Era preciso globalizá-lo. Bolognesi bateu o pé. Se tivesse globalizado seu filme, talvez ele se tivesse perdido no meio do caminho. Selton Mello e Camila Pitanga foram os primeiros a embarcar no projeto - Rodrigo Santoro chegou depois. "São atores autores", define o diretor e roteirista. "Havia escrito um roteiro que eles reinventaram comigo. 'Isso a gente não pode dizer, mas pode ser assim', sugeriam."

Quando começou a fase do desenho, mais até do que Luis gostaria (ou esperasse), os desenhistas, inebriados pela voz de Camila, criaram Janaína com os traços dela. "Quando começamos, eram garotos de 18 anos. Fizeram a passagem para a idade adulta no Amor e Fúria." Quanto à mitologia tupinambá... "De tanto participar de oficinas e seminários de roteiros, sabia que a tragédia grega é a base da narrativa hollywoodiana. Na hora de criar um roteiro sincrético da cultura brasileira, achei que seria válido me inspirar na mitologia tupi-guarani. E surgiram os relatos dos tupinambás, com seus deuses do bem e do mal, Munhã e Anhanguá."

Seis séculos de lutas. O guerreiro, tornado imortal, atravessa as guerras em busca da mulher amada. Chega à ficção científica. Depois de fazer o diagnóstico da história do País - do que chama de Holocausto brasileiro, o genocídio de milhões de índios -, Bolognesi faz a prospecção futurista. No mundo em desequilíbrio, a água será o bem maior. De forma muito consciente, o diretor colocou na ficção de Amor e Fúria sua tentativa de documentar e entender o Brasil.

"Quando comemoramos a fundação do Rio de Janeiro, estamos comemorando na verdade o extermínio dos tupinambás", ele observa. Amor e Fúria vai na contracorrente da grande história. No Brasil do futuro, as milícias, um problema tão atual, veja-se o caso de Tropa de Elite 2, se transformaram numa força econômica. E as pessoas talvez nem notem, mas há uma referência no diálogo ao presidente como sendo um pastor evangélico. "Não sou contra as religiões, mas defendo o Estado laico. Os árabes inventaram a matemática e olhem aonde o fundamentalismo os está levando", diz o diretor.

Em Utrecht, havia animações muito mais ricas que Amor e Fúria. "Vão me apedrejar", Bolognesi temia. O que encontrou foi acolhida. "A narrativa não é de vanguarda, a técnica não é de ponta, mas o filme virou uma animação cult e sofisticada, na qual as pessoas embarcam pela história e pela dimensão humana e política. É preciso fazer algo pelo Brasil, pelo planeta, e o filme passa essa urgência."

Embora feliz, ele se preocupa pelo futuro do filme. Amor e Fúria estreia hoje com 60 cópias. É um bom número, mas, devido à saturação do mercado pelos blockbusters (nacionais e estrangeiros), o filme vai compartilhar horários. "Vai ser duro mantê-lo duas ou três semanas, um mês em cartaz." Outra história de resistência começa agora.

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