Animação: coisa de gente grande

Ao completar 18 anos, festival celebra a boa fase da produção nacional

Flavia Guerra / RIO, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2010 | 00h00

Papo Animado. Flatworld, de Daniel Grieves, é um dos destaques das palestras e workshops que ocorrem durante o evento    

 

 

 

No último sábado, durante debate com o público carioca do Anima Mundi (a edição no Rio terminou no domingo), o diretor Stephen Hillenburg, "o criador do Bob Esponja", ouviu de alguém na plateia: "Você teve muita dificuldade para assinar o contrato com a Nickelodeon?"

Em um festival totalmente dedicado à animação, em que o público, mais que espectador, é também júri, ouvir tal pergunta não costuma deixar um diretor surpreso. A não ser pelo fato de que quem questionava Hillenburg era uma garotinha. "É... Assim caminha a animação brasileira. O Anima Mundi está completando 18 anos e vê o público também chegar à maioridade com o festival. Quem imaginou que, quando criamos o Anima, uma menina fosse estar tão bem informada", disse Cesar Coelho, um dos criadores do evento.

É essa celebração à maioridade da animação nacional que chega hoje a São Paulo trazendo mais de 452 filmes, diversos debates, oficinas, mostras especiais, entre outras atividades. Se depender dos números apresentados na fase carioca do Anima Mundi, cujo público foi recorde (cerca de 70 mil pessoas), a edição paulista tem tudo para continuar celebrando. "São Paulo neste ano não conta com a participação de Hillenburg nem com o Anima Forum, que é muito importante para a discussão do formato e do futuro da animação, mas terá todas as outras atividades e tem um público incrível e interessado", aposta Cesar.

Se o público está cada vez mais maduro, a produção nacional dá provas de que caminha no mesmo ritmo. Apesar de não contar com nenhum longa nacional, esta edição do festival tem o Brasil como recordista de produções exibidas: 108. Um dos destaques da atual produção nacional é Guilherme Marcondes. Ele é um dos animadores que ministram o Papo Animado. Marcondes, responsável pelo experimental Tyger, um dos maiores sucessos do Anima Mundi, apresentará para o público seus principais trabalhos e contará detalhes sobre cada produção. Além do Papo, Marcondes ministra também uma Master Class para profissionais ( aberta ao público) na sexta-feira, às 10horas, no Memorial. Responsável pela criação das animações do filme Nina (de Heitor Dhalia), entre outros, Marcondes vai revelar como misturou várias técnicas, como 2D, 3D, maquetes, bonecos e filmagem ao vivo para criar Tyger.

Outro destaque da Master Class é o espanhol Jordi Grangel. Criador dos bonecos de A Noiva Cadáver, de Tim Burton, Grangel tem um estúdio em Barcelona, onde trabalha de acordo com técnicas artesanais, mas infalíveis, da criação de bonecos, modelos e maquetes.

Entre os convidados internacionais do Papo, estão os imperdíveis Cordell Barker e Daniel Greaves. Depois de lotar as sessões no Rio, o canadense Barker desembarca em São Paulo com a mesma missão de mostrar ao público (hoje, às 19horas no Memorial) por que seus trabalhos são dignos de indicações para Oscar e Palmas de Ouro em Cannes. The Cat Came Back (O Gato Voltou), inspirada em uma canção infantil, foi indicado ao Oscar em 1989. Já Strange Invaders conta de forma irônica e bem humorada a chegada do primeiro filho do animador. Não por acaso, rendeu a Barker a segunda indicação para o Oscar, em 2002. Destaque para o mais recente curta do diretor: Runaway . Divertido conto sobre o destino de pessoas que tomam um trem cuja parada final não é lá muito segura, Runaway levou a Palma de Ouro em Cannes em 2009.

Não menos premiado é Daniel Greaves. Vencedor do Oscar e da Palma de Ouro de 1992 por Manipulation, o diretor inglês é pedida obrigatória. Pela "subversão" da técnica em Manipulation, na qual mescla computação gráfica com a técnica do stop motion (na qual os objetos são animados quadro a quadro), Greaves foi convidado para tocar o projeto de Flatworld. Também cult do formato, Flatworld traz personagens "de cartolina" que se movem em cenário real.

Fase boa. É interessante observar que a escolha das "participações especiais" desta edição destacam produções fora do "eixo Hollywoodiano". Ainda que Bob Esponja seja um "personagem norte-americano", a experimentação de Hillenburg (que criou uma esponja do mar quadrada gerente de uma lanchonete, que mora em um abacaxi) destacam que, acima de qualquer esquema massivo, há sempre um autor. O mesmo vale para os europeus Jordi, Barker e Greaves. "Depois que As Bicicletas de Belleville e do sucesso de produtoras como a Aardman (de Fuga das Galinhas), a animação europeia ganhou vigor", comentaram os convidados.

Mesma fase de otimista passa o Brasil que, se não atingiu ainda a maturidade, entra na maioridade com muito o que comemorar. Ainda que o fato de que nenhum longa nacional integra o Anima Mundi deste ano revele que a fase de finalização continua, sem trocadilhos, longa, a produção nacional passa por fase de consolidação.

Cerca de dez filmes nacionais devem estrear no cinema nos próximos anos. Em paralelo, novos projetos para a TV, coproduções internacionais e programas de incentivo à produção, como o AnimaTV, contribuem para a consolidação da sonhada indústria de animação brasileira. A julgar pelo Anima Mundi, público não vai faltar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.