Anima Mundi chega à 16.ª edição como programa de adulto

Mais de 441 filmes de 42 países provam que 'desenho' não é 'coisa de criança'; festival começa na quarta, 23

Flávia Guerra, de O Estado de S. Paulo,

21 de julho de 2008 | 17h59

Que animação não é só coisa de criança todos os fãs da arte já sabem. Mas o que poucos sabem é que o primeiro longa de animação da história não só não era para o público infantil como se tratava de uma contundente sátira política. Era O Apóstolo, do ítalo-argentino Quirino Cristiani, ‘desenhado’ em 1917, que lançava um olhar irônico e bem-humorado sobre a Argentina da época. Sem levar uma criança ao cinema (que, naquela época, passavam longe das salas escuras e esfumaçadas, onde era permitido fumar), foi enorme sucesso de público, ficou meses em cartaz, com sete sessões (todas lotadas) por dia.  Veja também:Confira trecho do longa 'Idiots and Angels'   Confira trecho do longa 'Delgo' Confira trecho do longa 'Princess' Confira trecho do curta 'Animadores' Confira trecho do curta 'Seu Lobo!' Confira trecho do longa 'Belowars'  A descoberta foi feita há alguns anos pelo diretor Gabriele Zucchelli. Parece pouco, mas diz muito sobre uma área que cada vez mais ganha seu devido status de arte. Quem quiser saber mais dessa história e conferir os melhores ‘filmes para adultos’ da temporada de novas animações pode se preparar para mais uma maratona Anima Mundi, o maior festival latino de animação, que começa na quarta-feira, 23, e vai até domingo no Memorial da América Latina.  Não só pelo documentário sobre Cristiani, nesta 16ª edição do evento a animação ‘para gente grande’ é um dos principais destaques da programação com 441 filmes de 42 países. Destes, 74 são brasileiros, incluindo um longa em competição, o Belowars, do paranaense Paulo Munhoz. "Os filmes ‘de adulto’ estão tão presentes neste ano que há muitos que, não só não foram feitos para crianças como são proibidos para o público infantil", comenta Cesar Coelho, um dos criadores do festival.  Este é o caso de Princess, do dinamarquês Angers Morgenthaler. Longa que mistura a técnica da animação em 2D (duas dimensões) e o live action (filme com atores) integrou a Quinzena dos Realizadores no último Festival de Cannes e causa mal-estar e admiração por onde passa. Princess é Christina, irmã de August, uma garota que, ainda na adolescência, torna-se atriz pornô ‘incentivada’ pelo namorado, que dirige e explora a jovem estrela. Vítima da face cruel da indústria pornográfica, ela acaba sendo assassinada. E August, culpado, tenta vingar a morte da irmã ao mesmo tempo que tem de criar a sobrinha Mia. Com linguagem nada óbvia, o filme traduz em metáforas visuais a raiz do ódio, frustração e das angústias de August diante de sua tragédia familiar.  Não por acaso, Princess integra a mostra competitiva de longas do Anima Mundi, que neste ano conta com mais três concorrentes. Idiots and Angels, do americano Bill Plympton; Delgo, dos também americanos Marc. F. Adler e Jason Maurer; e o brasileiro Belowars. "É um ano bom. Princess tem uma temática pesadíssima. Idiots and Angels é altamente irônico, criado pelo nosso ‘sócio’ Plympton. Impressionante como ele produz, praticamente um filme por ano", diz Coelho. Ao assistir a filmes como Princess e Idiots, é interessante observar que, mais que stopmotion (a tradicional técnica de bonecos em massinha), a clássica animação em 2D, e hoje em 3D, ganha novos contornos ao se unir a linguagens que jamais se pensaria que casariam bem com desenhos. O documentário é um dos maiores exemplos. A rigor, não há nada menos verdade que criar uma realidade animada para documentar um fato, fazer uma denúncia ou uma reportagem. Pois é o que os animadores vêm fazendo cada vez mais.  Princess é só um exemplo, mas Valsa para Bashir, do israelense Ari Folman, que concorreu à Palma de Ouro também em Cannes, Persépolis, de Marjane Satrapi, que concorreu ao Oscar de animação, e até o brasileiro Dossiê Re Bordosa, que investiga o assassinato da personagem criada por Angeli por seu próprio criador, vêm provando que não há mais fronteiras para quem quer contar uma boa história. "São exemplos emblemáticos. Sobre Bashir, quando estávamos em Annecy (maior festival de animação do mundo, na França), há pouco mais de um mês, e vimos o filme, houve essa discussão. Como usar a animação para fazer um documentário? Folman podia ter filmado tudo aquilo, mas jamais teria conseguido traduzir tão bem as sensações e memória daqueles garotos que lutaram naquela guerra se não fosse pela linguagem da animação", acrescenta Coelho.   16.º Anima Mundi. Memorial da América Latina. Av. Auro Soares de Moura Andrade 664, Barra Funda, 3823-4600. 11 h às 24 h. R$ 3 (vídeo) e R$ 6 - sessões gratuitas: Futuro Animador com distribuição de senhas 1 hora antes de cada sessãoCentro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, 3113-3651. 3.ª a dom., 13 h às 19 h. R$4

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