Angústia que corrói a alma

O clássico O Incrível Homem Que Encolheu, de Jack Arnold, é muito mais que uma simples fantasia científica

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2011 | 03h09

Pergunte na França, onde a crítica tem pelo cinema fantástico uma atração sem igual no restante do mundo. Em toda parte, filmes de monstros e fantasias científicas tendem a ser olhados como menores. Na França, Jack Arnold é tão idolatrado quanto... Federico Fellini? Jack quem? Agradeça à Cult Filmes pela oportunidade. A distribuidora está lançando O Incrível Homem Que Encolheu. Sabe o grito de desespero de Peter Lorre no desfecho de M, O Vampiro de Dusseldorf, de Fritz Lang? O berro do anti-herói de The Incredible Shrinking Man carrega a mesma intensidade, o mesmo sofrimento. "Eu existo!"

Para falar do clássico (cult?) de Jack Arnold é preciso reportar-se aos anos 1950. Até como consequência do perigo atômico, o cinema foi pródigo, naquela época, em realizar filmes sobre os efeitos da radiação. Formigas, aranhas, muitos insetos adquiriram proporções alarmantes e extraordinária capacidade de destruição. O clássico dos clássicos da tendências é Them!, O Mundo em Perigo, de Gordon Douglas, sobre formigas gigantescas (e assassinas). O perigo no cinema pode vir do espaço (It Came from Outer Space, de 1953) ou das profundezas das águas paradas (O Monstro da Lagoa Negra, de 1954). O caso de O Incrível Homem Que Encolheu é particular. E o título diz tudo.

No filme de 1957, o personagem de Grant Williams sofre um acidente e começa a diminuir de tamanho. De forma vertiginosa, passa de menino, a inseto e, finalmente, átomo. Tudo isso é impressionante e a tecnologia é avançada para a época, com efeitos que ainda são muito bons, mas o que toca o espectador é a densidade emocional dessa trajetória ao reverso. Williams é casado no filme e a mulher permanece com suas dimensões normais, enquanto ele vai diminuindo. Isso, naturalmente, aumenta a angústia do homem, o seu sentimento de inferioridade. De repente, ele não está mais habilitado a ter relações sexuais. Inferioridade, impotência - o tema de Jack Arnold termina sendo a identidade, a crise vivida por seu patético personagem.

O cinema, e não apenas Hollywood - mas o cinema norte-americano com mais frequência -, criou essa ideia do lar como um santuário. A cidadela ou a fortaleza do lar é esse lugar em que as pessoas podem se sentir seguras. Não em O Incrível Homem Que Encolheu. O lar se revela uma caixa de armadilhas. O gato da família vira um felino de proporções gigantescas com quem Williams tem de lutar pela vida. E, como ele não cessa de encolher, a grande batalha é contra uma aranha - que parece tão ameaçadora quanto aquela de Tarântula, que o próprio Arnold havia feito dois anos antes, com John Agar.

Na origem de O Incrível Homem Que Encolheu está um relato de Richard Matheson, adaptado pelo próprio autor. Nascido em 1926, ele se estabeleceu como um dos mais renomados autores de ficção científica dos EUA. Cooptado por Hollywood, virou roteirista. É pai de quatro filhos, três dos quais se tornaram escritores para cinema, como ele. Entre seus originais famosos estão Omega Man, que deu origem a Mortos Que Matam, A Última Esperança da Terra e Eu Sou a Lenda; Duel, que Steven Spielberg transformou em encurralado; e The Test e Steel, que viram episódios da série Além da Imaginação.

A literatura de Matheson é claramente um reflexo da Guerra Fria, quando os EUA ainda temiam a ameaça da antiga URSS. Muitos de seus textos são contos de paranoia, em que o ambiente, mesmo o mais cotidiano - a casa de O Incrível Homem Que Encolheu -, se torna estranhamente ameaçadora. Seus personagens não são os clássicos super-heróis nem cientistas loucos, embora Matheson - e Arnold, com ele - compartilhem o temor pelos perigos que o avanço tecnológico pode oferecer para os homens. Na verdade, o que o filme retrata é a luta moral e física de um homem comum confrontado com uma situação excepcional.

Toda a arquitetura dramática converge para esse final em que Arnold e Matheson quiseram colocar alguma esperança. Nem por isso O Incrível Homem deixa de ser angustiante. Apesar do seu gosto pelo fantástico, o diretor frequentou outros gêneros, incluindo westerns e a comédia O Rato Que Ruge, precursora de nada menos que Doutor Fantástico, de Stanley Kubrick.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.