Angústia, morte e a definição do ser

Caderno Sabático participa de debate que marca lançamento de nova tradução de Ser e Tempo, de Martin Heidegger

FELIPE CHERUBIN, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2012 | 02h08

O caderno Sabático, a Editora Unicamp e a Livraria da Vila promovem amanhã o lançamento do livro Ser e Tempo, do filósofo alemão Martin Heidegger (1889- 1976) com um debate do qual participam o tradutor Fausto Castilho, o editor Rinaldo Gama, do Sabático, e o repórter especial Antonio Gonçalves Filho.

O tratado Ser e Tempo, que chega em tradução bilíngue (coedição Editora Unicamp e Vozes), é parte do conjunto das grandes obras filosóficas do século 20. Mesmo inacabado, não impediu Heidegger "que viesse a tratar fora do plano de um tratado, como escrito avulso, muitos dentre os temas que constariam da segunda parte não redigida", como bem explica Fausto Castilho, que foi aluno do próprio Heidegger, de Merleau-Ponty, Piaget e Bachelard.

A obra trata da questão do "Dasein". Heidegger pretende repropor a chamada questão-do-ser já formulada pelos gregos. Nessa obra, a interrogação é formulada a partir da análise ontológica de um ente "exemplar", que tem por isso a função de ontologia fundamental. Esse ente exemplar é denominado por Heidegger de Dasein. É, portanto, a velha questão grega, o que é o ser?, que o filósofo crê ter sido feita incorretamente ao longo da história da filosofia. Em sua ontologia, propõe-se a diferenciar ser de ente - levando em conta a questão da temporalidade - para , então , recolocar de forma correta a pergunta radical de Leibniz (1646-1716): "Por que há algo em vez de nada?" A obra traz ainda reflexões sobre a angústia, a morte e a técnica, tendo influenciado o pensamento de filósofos como Jean-Paul Sartre, Hannah Arendt e Paul Ricoeur.

Herdeiro intelectual de Franz Brentano (1838-1917) e Edmund Husserl (1859-1938), que vinham à esteira do renascimento aristotélico promovido por Adolf Trendelemburg(1802-1872), Heidegger , lembra Castilho, "preconiza desde cedo uma interpretação original de Aristóteles em sua tese por muito tempo conhecida como Relatório Natorp, que lhe valeu em 1923 a nomeação como professor extraordinário em Marburgo".

O dilema entre "tecnofilia" e "tecnofobia" e as desilusões quanto ao caráter da ciência como uma panaceia universal haviam sido tratadas pelo aluno de Brentano, Edmund Husserl - por sua vez professor de Heidegger- em Krisis, espécie de manifesto contra a corrosão dos valores pela técnica. Crise, aliás, preconizada por Nietzsche.

Sobre essas influências, Castilho observa que "a de Husserl sobre Heidegger é mais do que ostensiva", não ocorrendo o mesmo no caso de Nietzsche, "já que essa relação direta e mais intensa com ele só acontece tardiamente, entre 1936 e 1940, durante a guerra e no momento preciso em que os nazistas procuram conferir àquele autor a condição de ideólogo preferencial do nazismo." Por sua vez "não é de modo algum clara qual seja a parte que Nietzsche pode ter tido na elaboração dos conceitos próprios de Heidegger, antes, e depois de Ser e Tempo".

Nexos. Seria o filósofo cúmplice do nazismo, envolvido por um ingênuo transe "tecnofílico", ou uma espécie de resistente, como Oskar Schindler? Quanto a essa questão, Castilho é pontual: "Os nexos entre o pensamento de Heidegger e o nazismo não podem ser buscados exclusivamente nos pronunciamentos do reitor durante os meses em que exerceu a função na universidade de Friburgo", pois, segundo o tradutor, "suas opções políticas nesse período refletem o contexto social profundamente interiorano e resistente à mudança onde nasceu, cresceu, formou-se e do qual por diversos meios conseguiu nunca se afastar". E adverte: "Não se pode ignorar também que sua reflexão desdobra-se numa multiplicidade de dimensões que não se explicam a partir de nenhuma ação política e menos ainda da adesão ao nazismo em 1933".

Heidegger, que teve como professor o judeu Edmund Husserl e um relacionamento amoroso com a filósofa judia Hannah Arendt, provocou, apesar disso, acusações de antissemitismo. "No que se refere à imputação de antissemitismo, os próprios judeus, entre os quais alguns discípulos de Heidegger, não chegam a fixar uma opinião consensual".

Nascido na interiorana Messkirch, Heidegger era filho de camponês. É notória uma espécie de "vontade de poder" correndo em paralelo à vida do pensador, que exerceu cargos como o de reitor da Universidade de Freiburg. Seu apego à Floresta Negra e à poesia - sobretudo a de Hölderlin - é simbólico de um "retorno às origens", uma tomada de consciência de seu "superego" em busca de realizar mais do que seu pai conseguiu.

Contudo, Castilho é reticente quanto às interpretações biográficas. "Desde os gregos, a biografia é um gênero estranho à filosofia", diz. "Ultimamente ganhou certo relevo na psicanálise e na cultura da mídia, o que não autoriza sua extrapolação para a área da filosofia. Não me parece possível, nem de interesse filosófico, conhecer Heidegger ou outro filósofo de verdade, em seu íntimo", conclui o tradutor.

Foram dois os motivos que o levaram a traduzir: primeiro, conhecer as obras na língua dos filósofos que foram verdadeiramente importantes na história da filosofia e, segundo, cumprir o preceito que acompanha a introdução da filosofia na Unicamp, que manda estudar aquelas obras no texto original.

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