ANGÚSTIA EM PRETO E BRANCO

Imagens soturnas, que provocam inquietação, estão em Medo-a-Medo, do português Fernando Lemos

SIMONETTA PERSICHETTI, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2013 | 02h11

"A arte não deve agradar nem desagradar", afirma o artista português Fernando Lemos, radicado no Brasil há seis décadas, durante entrevista por telefone ao falar de sua exposição Medo-a-Medo, aberta na Galeria Fass (Rua Rodésia, 26) até o dia 10 de maio.

E se o título já é provocador, a mostra é ainda mais. Com curadoria de Rubens Fernandes Junior e Fábio Magalhães e conceito de Mônica Vendramini, o evento reúne 27 desenhos inéditos e 14 fotografias que percorrem os 60 anos de atividade de Lemos.

Em uma época em que toda imagem parece ter finalidade publicitária, procurar apenas uma fruição estética que agrada aos olhos, sem nada perguntar ou cutucar, é o que Fernando Lemos faz ao organizar seu material imagético em torno do medo, que ele mesmo define como "uma colcha de retalhos em que aparecem traços de angústia e de desespero". O sentimento humano modificado pela cultura e que se insere na nossa vida, no nosso cotidiano: "Defino o medo como a suspensão do desejo". Aquele átimo, momento no qual o medo pode paralisar ou impulsionar para novos movimentos e conhecimentos: "Não pensei numa exposição bonita, nem ela deve ser. Ela nasceu da vontade de inserir na nossa referência do cotidiano a importância do medo que aparece de várias formas na nossa vida".

E assim à nossa frente aparecem desenhos em preto e branco que nos mostram bombas atômicas, pássaros soturnos, rochas escuras, monstros caseiros e crianças manipulando diabolôs no teatro chinês. Já nas fotografias encontramos trabalhos feitos na sua fase surrealista, entre 1949 e 1952, quando ainda morava em Lisboa e com seus amigos artistas optou por este movimento para driblar a ditadura portuguesa. Completam a exposição três fotografias dos anos 1960, inéditas e feitas em viagens pelo mundo.

Também poeta e pintor, aos 84 anos Fernando Lemos espera que esta mostra traga um momento de reflexão para o espectador: "São imagens que provocam estranheza, inquietação num momento em que estética, estilo são apenas palavras sem sentido, e toda arte é contaminada".

Uma exposição que exige ser observada, vista, na qual dois universos semelhantes, mas diferentes em sua essência perceptiva, desenho e fotografia, se encontram e dialogam numa cultura que se cria e desenvolve por meio da imagem: "Uma maneira de, por meio da arte, oferecer munição para apreciar a vida".

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