Divulgação
Divulgação

Angústia de ser moderno

Sedutor, Greenblatt liga 'Da Natureza das Coisas' ao pensamento renascentista

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2012 | 21h30

A história contada pelo acadêmico Stephen Greenblatt em A Virada conquistou a crítica internacional, garantiu ao teórico e professor norte-americano o Pulitzer deste ano, mas colocou sob suspeita o subtítulo que arranjou para o livro, O Nascimento do Mundo Moderno. É certo que filósofos gregos, antes do poeta romano Tito Lucrécio Caro (99 a.C. - ca 55 a.C.), ou simplesmente Lucrécio, já discutiam ideias presentes no poema De Rerum Natura (Da Natureza das Coisas, numa tradução literal do latim) e nem por isso alguém diria que a obra de Platão representa o marco zero da modernidade. Para um adepto do new historicism, que prega o entendimento de uma obra por meio de seu contexto histórico, Greenblatt deveria, portanto, ser menos enfático ao escrever que a redescoberta do poema de Lucrécio pelo erudito italiano Poggio Bracciolini, em 1417, embora importante para a difusão das ideias do poeta romano, não foi a obra seminal que levou pintores renascentistas como Botticelli a desenterrar deuses pagãos. Nem filósofos como Giordano Bruno a desafiar a Igreja e acabar na fogueira, supondo que ambos fossem seguidores de Lucrécio.

Dito assim, é possível concluir que A Virada é um fenômeno editorial mais considerado pela história que Greenblatt foi capaz de inventar - e ele teria produzido um best-seller notável como O Nome da Rosa, se tivesse escrito uma obra ficcional - do que pela história real. Tudo o que se sabe do poema Da Natureza das Coisas é que ele ficou, de fato, fora de circulação e tido como perdido até ser copiado, entre os séculos 13 e 15, e redescoberto por Bracciolini num mosteiro alemão. Bracciolini foi secretário particular do papa João XXIII, deposto após ser acusado, em 1415, pelo assassinato do antecessor, por abuso sexual e outros crimes (cinco séculos mais tarde, outro papa, Angelo Roncalli, num gesto cristão de caridade, adotou o nome João XXIII).

O livro de Greenblatt é, apesar do subtítulo, uma ótima leitura. Só não convence quando insiste que a Renascença começou com a redescoberta do poema de Lucrécio e do passado epicurista pagão. Afinal, é preciso ter como certa a morte da cultura clássica na Idade Média para que se dê tanta importância ao poema como o embrião do espírito humanista dominante na Itália do Renascimento. Greenblatt, talvez inspirado pelo mito do herói que veio libertar a Idade das Trevas da ignorância, identifica no poema de Lucrécio o ano zero do mundo moderno, tratando de forma um pouco caricata o cristianismo medieval e promovendo as ideias do poeta romano, que violam as fundamentais crenças da doutrina cristã. O crítico Michael Dirda, do jornal The Washington Post, ficou irritado com A Virada, acusando Greenblatt de reciclar ideias de livros alheios e ignorar que, antes dele, Harold Bloom já havia utilizado o termo “virada” para construir sua polêmica teoria literária sobre a angústia da influência (em latim o termo “clinamen”, virada ou desvio, usado no poema de Lucrécio, também aparece como “declinatio” e “inclinatio”).

Greenblatt atribui à descoberta de Bracciolini um poder sobrenatural, que teria marcado não só a arte e a filosofia renascentistas como a ciência e a política dos séculos seguintes. Na lista dos nomes citados por ele como inspirados pelo pensamento radical do epicurista Lucrécio estão desde Shakespeare até Freud, passando por Maquiavel, Galileu, Thomas Jefferson e Einstein. Eles teriam identificado no longo e subversivo poema De Rerum Natura (7.400 versos de absoluta indiferença aos poderes divinos) alguns pontos em comum com suas concepções de mundo.

Para ajudar os leitores, Greenblatt faz uma breve lista dos principais pontos que compõem a filosofia lucreciana. Três deles: o universo funciona bem sem a ajuda dos deuses; o temor religioso faz muito mal às cabeças dos homens; a matéria é feita de pequenas partículas atômicas em eterno movimento de reorganização, sendo o choque entre elas o gerador da vida. A “virada”, identificada com um movimento mínimo que provoca várias colisões ao acaso, nada mais seria do que a fonte do livre-arbítrio, segundo Greenblatt, porque a natureza experimenta o tempo todo e todos os seres evoluem da mesma forma, num processo de tentativa e erro. Para Lucrécio, a alma é feita do mesmo material do corpo, não há vida após a morte, as religiões são inúteis, além de cruéis, e o objetivo da vida humana não é outro além do prazer - sendo seu maior obstáculo não a dor, mas a ilusão.

Com tais ideias, não surpreende que as autoridades religiosas escondessem o poema de Lucrécio num convento alemão de estantes empoeiradas. Um nome simples para a “peste” que o poeta trazia, diz Greenblatt, é ateísmo, o que tornava a descoberta de Poggio - arrivista ambicioso e laico, que precisava do dinheiro da venda de livros raros, após a deposição do papa - tremendamente inoportuna. É certo que alguns traços da cultura cristã (juízo universal, fogo infernal) foram replicados de histórias pagãs antigas, como lembra o autor, mas ele também replica uma antiga crença: a de que um simples poema epicurista possa mudar o mundo. Olhando ao redor, a única conclusão possível é a de que sempre houve mais moléculas “conservadoras” do que “modernas”, dispostas a experimentar.

O próprio Lucrécio, apesar de toda a “modernidade” que levou Greenblatt a identificar o poeta como guru dos renascentistas, não era tão ateu assim. Em Da Natureza das Coisas, ele invoca o poder de Vênus, apelando para que a deusa se digne a olhar o poema que está escrevendo. Não se pode provar que Vênus tenha lido De Rerum Natura, mas o fato é que isso não tem a mínima importância, considerando o que Lucrécio prega - os deuses, diz ele, são indiferentes ao destino dos homens e todos os cultos e sacrifícios não passam de pura superstição. Ainda assim, não custa rezar, pois, como insiste Greenblatt, a redescoberta do poema, retirado do esquecimento dez séculos após ter sido escrito, pode ter marcado o advento da modernidade, mas não livrou os homens de antigos deuses vingativos, dispostos a castigar epicuristas como Lucrécio e livres pensadores como Montaigne, que vivia citando o poeta.

Foi em Montaigne que Shakespeare teria encontrado Lucrécio, garante Greenblatt - de fato, o pensador francês cita mais de uma centena de vezes o poeta romano em seus ensaios (eles foram publicados em 1580 e traduzidos para o inglês em 1603). O cético Montaigne, segundo o autor de A Virada, desprezaria tanto quanto Lucrécio uma moralidade sustentada à base de pesadelos e ameaças sobre a vida após a morte, embora seu temperamento o afastasse dos epicuristas. Shakespeare, diz ele, fala de partículas atômicas numa passagem de sua peça Romeu e Julieta em que Mercúrio provoca o herói ao descrever a rainha Mab como uma parteira de fadas que entra na pele dos humanos (ela seria a herpes), minúscula como “uma junta de pequenos átomos”. Outra prova da resistência do poema de Lucrécio estaria no epílogo, em que os personagens abjuram, segundo Greenblatt, qualquer perspectiva de vida após a morte. Nesse terreno de associações, o professor americano, logo se vê, continua imbatível. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.