Angie, sensível e intimista

Talvez seja exagero dizer com todas as letras que é um bom filme, mas é bem dirigido e interpretado

O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2013 | 02h13

Talvez seja exagero dizer com todas as letras que Angie é um bom filme, mas é bem dirigido e interpretado. Tem até uma belíssima ideia de mise-en-scène, quando um personagem, de costas, encobre um quadro na exposição da protagonista. Quando ele se volta e o espectador vê a pintura, o enigma do filme é desvendado sem que uma palavra seja dita.

Márcio Garcia é certamente um homem bonito, com pinta de galã. Oprah Winfrey, na TV dos EUA, chegou a chamá-lo de 'Brad Pitt brasileiro'. Mas Márcio, com alguma frequência, tem sido o homem no lugar errado. Os franceses gostam de se referir à má estrela que persegue determinadas figuras. No cinema, o diretor Nicholas Ray e a atriz Patricia Neal teriam tido essa mauvaise étoile. Márcio Braga foi atropelado pela ascensão de Rodrigo Lombardi na novela O Caminho das Índias, de Glória Perez, e também não foi um grande apresentador. Como diretor, tem investido numa carreira internacional, com projetos de Hollywood, o que o torna suspeito aos olhos de boa parte da crítica brasileira.

Seu curta Predileção foi vaiado no Festival de Gramado, embora seja benfeito e revele uma faceta que Márcio Garcia confirma em Angie. Ele é muito bom diretor de atrizes. Transformou Guilhermina Guinle em mulher fatal no curta sobre assalto a banco que tem uma perseguição bem filmada. Márcio mostra agora que Camille Belle não é só bela (até no nome). Ela cria com sensibilidade uma personagem que não é fácil.

Pode ser que tenha sido o sentimento de ser meio deslocado que levou Márcio Braga a se envolver no projeto de Angie. A garota que busca o pai e mora numa barraca vive entre duas culturas - como ele, querendo fazer filmes em inglês. Angie passa um sentimento de precariedade emocional e ela se envolve com um jovem policial que também vive num trailer. Colin Egglesfield faz o papel. Andy Garcia é um sem-teto e Juliette Lewis é a dona de uma lanchonete de beira de estrada. Todo mundo está bem e a história, sem grandes conflitos, às vezes improvável (mas nunca impossível), é intimista, familiar. Depois do policial, Márcio Garcia se aventura em outro registro. Márcio precisa centrar-se mais, mas o cara que tantas vezes pareceu à deriva finalmente está no lugar certo como diretor. / L.C.M.

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