Angelina, a número 1

Ela vem aí em Salt, com muitas cenas de ação, e conta ao Estado como é ser estrela de talento, mulher cobiçada e mãe dedicada

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 Julho 2010 | 00h00

Ela é alta, muito alta, tem pernas finas e o vestido meio largo oculta as formas, mas antes, durante a coletiva, deu para ver que Angelina Jolie não tem muitos glúteos. Que importa? O rosto dessa mulher magnetiza o repórter do Estado e os lábios são ainda mais sensuais do que parecem na tela. Angelina faz o gênero esfinge - "Decifra-me ou devoro-te." É deslumbrante. Sabe do seu efeito sobre os homens e o utiliza - não por acaso é hoje a número 1 entre as dez personalidades mais poderosas de Hollywood. Angelina Jolie está em Cancún, no México, participando do Sonny Summer 2010.

Veio mostrar Salt no evento em que a distribuidora Columbia reúne jornalistas de todo o mundo para exibir sua nova linha de produção - e possibilitar encontros com astros e estrelas. Este ano, Cancún abrigou Julia Roberts, Javier Bardem, Jackie Chan, Eva Mendes, Adam Sandler, Salma Hayek, Will Smith, este, apenas acompanhando o filho Jared, que estrela a nova versão de Karate Kid. Angelina foi a top. Veio com quatro dos seis filhos - dois ficaram em casa com o pai, Brad Pitt. Com Angelina, não existe censura. Você pode falar de filmes - e Salt -, mas também de "Brangelina" (Brad e ela) e as crianças.      

 

Salt é um thriller de paranoia que parece ter mais a ver com a era George W. Bush do que com Barack Obama. Por que esta trama sobre espiões russos infiltrados nos EUA?

Psiu! (Ela põe o dedo na boca, como quem pede silêncio.) Não vá estragar a surpresa, contando a trama do filme. É absolutamente necessário que o espectador chegue sem saber muita coisa do que vai ver. Phillip (NR - o diretor Phillip Noyce) vai lhe dizer que o fato de os espiões serem russos não significa grande coisa. Salt não foi feito para estimular manias persecutórias. Mas a questão da identidade é essencial e extrapola o mundo da espionagem. Se você me perguntar quem é Salt, vou ser sincera. Não sei. Não construí uma identidade para ela. Não a enquadrei em nenhum conceito - boa, má, heroína, traidora. Se o fizesse, teria criado uma figura unidimensional. Mas vou lhe dizer uma coisa. Inicialmente, Salt era um thriller masculino. Chegou a ser oferecido a Tom Cruise, mas ele declinou. Felizmente, Phillip (Noyce) e a cúpula da Sonny chegaram à conclusão de que seria interessante transformar o protagonista numa mulher, e que seria eu.

O filme começa com uma perseguição espetacular. Nunca vi uma mulher fazer tudo aquilo que você faz, saltando de caminhões, voando sobre viadutos, cavalgando uma moto. Até que ponto é você mesma ou dublês?

Não vou dizer que é tudo 100% eu porque seria mentira, mas fiz muito mais do que o estúdio e a seguradora gostariam, por razões de segurança, e menos do que eu própria esperava fazer, porque chega um momento em que você precisa recorrer a profissionais. Caso contrário, estaria me arriscando gratuitamente. Tenho família, marido, seis filhos. Não vou arriscar tudo isso. Quando sinto que minha segurança física está em perigo, paro tudo. Meu lema é segurança. Gosto de fazer, de ousar. Uma dose de risco é necessária, mas tento não ultrapassar o limite do razoável.

Brad (Pitt) lhe dá apoio?

Nós nos conhecemos fazendo um filme de ação espetacular, como este (Sr. e Sra. Smith). Ambos temos familiaridade com ação física e ele me apoia. Me acompanhou nas aulas de moto, para você ter uma ideia.

Sem entrar em detalhes, porque seria entregar uma das reviravoltas do roteiro, você é muito boa de ação, mas é melhor ainda quando secreta suas emoções. Naquela cena (NR - espere o dia 30 para saber), pensou no quê, na sua família para expressar aquela emoção intensa que tem de reprimir?

Muito obrigado, você é muito querido (sweet) dizendo isso para mim. Meu único medo é por minha família. Se pensasse em alguma coisa de ruim acontecendo a Brad ou às crianças, teria ficado travada e a cena não sairia. Sou uma atriz, tenho de saber lidar com emoções, de fingir. Mas se eu precisar buscar referências em minha vida, não pense que não as tenho. Tive uma relação difícil com meu pai (NR - Jon Voight), todo mundo sabe. A maior perda da minha vida foi minha mãe. Se preciso externar angústia, tristeza, dor, pode ter certeza de que possuo os instrumentos. Posso, eventualmente, exercitar meu passado, não quero ficar presa nele.

Há uma grande curiosidade da mídia por você, sua família, seus filhos. Uma das meninas, Shiloh, veste-se como menino e desperta curiosidade. Isso a incomoda?

Me incomodaria se alguém tentasse transformá-la numa freak. São crianças como as outras, enfim, tanto quanto possível, considerando-se os pais que têm. Quatro delas estão aqui comigo. Elas vão à piscina, brincam de igual com as outras crianças. Os seguranças só intervêm quando percebem que tem gente querendo invadir a privacidade, tirando fotos ou querendo usá-las em busca de informações. Shiloh realmente diz que é menino. Usa roupas de boy, pede para cortar o cabelo curto, tem um codinome masculino. Tudo isso pode parecer estranho, mas é uma fase. Estimulamos, Brad e eu, que as crianças sejam e se expressem como realmente são. Reprimir seria pior. Muitas meninas adotam modelos masculinos. E Brad... Bem, as meninas conseguem tudo o que querem com ele.

Você encarna um tipo de mulher sexy mas viril. Salt é a prova. Como as crianças lidam com isso?

Mas elas não lidam! Às vezes se divertem, às vezes ficam desconcertadas. E não são todos os filmes que faço que elas estão autorizadas a ver, por enquanto. De qualquer maneira, tentamos não embaralhar as coisas, levando-as a acreditar no mundo de fantasia como algo real. A verdade é que tudo isso é uma fase. Sou filha de ator e sei, por experiência própria, que um dia todas essas coisas se aclaram.

Vanity Fair fez uma grande entrevista com você e o site da revista anuncia a novidade. Você vai parar com a carreira?

Não é verdade. O que disse é que pretendo diminuir meu ritmo nos próximos anos. Agora mesmo, vou parar seis meses. Depois, pelos próximos dois ou três anos, estarei comprometida com um só projeto grande. O filme sobre Cleópatra vai consumir toda minha energia por um bom tempo.

Você e Brad são muito comparados a Liz Taylor e Richard Burton e agora você faz o papel mais famoso dela. Coincidência?

Não busquei esse projeto, mas ele está me fascinando. Ainda não temos diretor nem elenco, mas a ideia, com base numa bibliografia recente, é contar a verdadeira história de Cleópatra. Quem foi, realmente, essa mulher? Qual a fonte do seu poder? A lenda fala de sua extraordinária beleza, mas o que se diz hoje é que nem era bonita.

Mas então, se não era bonita, não é um papel para você.

Ah, mas você quer me galantear... A ideia é humanizar e atualizar o mito, pois é evidente que o cinema, mesmo quando se volta para o passado, tem um compromisso com o presente. Aquela Cleópatra era dos anos 1960. A minha, vai ser dos anos 2010.

Para concluir, diga como é um típico dia de Angelina Jolie, quando você não está filmando.

Sou muito dinâmica, mas adoro ficar em casa, sem fazer nada. Acordo cedo e as crianças invadem nossa cama. Gosto de ficar conversando com elas, brincando, até que cheguem as babás. Com minha mãe era a mesma coisa. Filhos podem ser amigos dos pais. Gosto de pôr os pés para cima e ler. E, de noite, é sagrado. A família inteira se reúne para jantar, uma mesa grande, cheia de gente. Sem games nem celulares. A mesa é para o convívio familiar.

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