'Angélica', de Oliveira, propõe enigmas que remontam a Méliès CRÍTICA

Exibido há três anos na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes, O Estranho Caso de Angélica abriu no mesmo ano a Mostra de São Paulo. Sua estreia comercial ocorreu somente agora, tanto tempo depois, e pelo selo da Mostra. Manoel de Oliveira, então próximo de completar 102 anos - nasceu em dezembro de 1908 -, agora vai fazer 105 anos. Segue firme, mas não mais tão forte. Volta e meia o estado de saúde preocupa, mas o cinema, como uma vitamina, o mantém vivo.

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

12 Setembro 2013 | 02h21

Angélica é um grande Oliveira, dos maiores da carreira do autor português. Veio somar-se a outro grande filme português que permanece em cartaz e tem lugar garantido entre os melhores do ano - Tabu, de Miguel Gomes. Dois grandes filmes de uma cinematografia pequena, de um país em crise. Não representa pouco. Angélica é um projeto antigo de Oliveira, que começou a esboçá-lo logo após a 2.ª Guerra. Naquela época, a censura da ditadura de Salazar implicou com o que o filme tinha de mais interessante para o diretor - já era uma narrativa fora de esquadro, ou do quadro da época. O salazarismo tomou-o como provocação.

Há um princípio da incerteza que ronda o cinema de Oliveira (e deu título a outro de seus grandes filmes). Angélica seguiu-se a Singularidades de Uma Rapariga Loira. De novo, o neto de Oliveira, Ricardo Trêpa, faz o protagonista. É um fotógrafo obcecado pela mulher que foi chamado para retratar. Angélica (a espanhola Pilar López de Ayala) morreu e sua mãe (Leonor Silveira) pede ao rapaz que imortalize a imagem da jovem. Ao enquadrar a imagem, Trêpa vê, no visor, que Angélica lhe sorri. A partir daí, fica cada vez mais possuído pelo mistério da mulher.

Do ponto de vista da imagem, Angélica parece obra de um autor antediluviano. Num período de desenvolvimento tecnológico e efeitos de ponta - leia texto sobre o novo Roland Emmerich, O Ataque, nesta edição -, Oliveira retorna às origens, a truques que remontam a Georges Méliès, quando o cinema ainda engatinhava. O paradoxo é que o aparentemente anacrônico assume aqui ares de modernidade. Oliveira rejeita a técnica porque pertence à ciência do cinema e tende a ser passageira. O que lhe interessa é a expressão artística, e essa é permanente.

O homem atraído por uma morta não é um personagem raro. Um Corpo Que Cai, de Alfred Hitchcock, eleito no ano passado o melhor filme de todos os tempos, trata disso. James Stewart, no clássico de Hitchcock, chega a recriar a morta no corpo de outra mulher, e ambas são interpretadas por Kim Novak. Oliveira não deixa de retomar, com a história parecida, temas caros ao mestre do suspense - carnalidade (erotismo) versus espiritualidade (transcendência). Neste sentido, a chave de Angélica talvez seja a participação de Ana Maria Magalhães, que faz uma engenheira que disserta sobre a antimatéria.

Mais estranho que tudo, no caso de Angélica, é que, ao filmar espíritos que voam, há um contraponto muito forte com a terra. O herói quer voar como os anjos, e o cinema permite isso, mas ele também segue o sulco que o trator escava no solo. É como um confronto. Modernidade versus tradição. Nada como o princípio da incerteza para animar a vida. Só a morte pode ser considerada certeza. Angélica trabalha também com a noção de anticlímax, mas essa é outra que Oliveira gosta de abordar, provocadoramente, em seu cinema. É um filme de enigmas. Fascinante.

MORTA QUE SORRI RENOVA PARA O

AUTOR O MISTÉRIO DA PRÓPRIA ARTE

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