ANGELI IN CONCERT

No Festival de Curitiba, os Parlapatões apresentam um musical em ritmo de rock'n'roll sobre a obra do cartunista

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, CURITIBA, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2013 | 02h11

Criar um espetáculo que tivesse a "cara de São Paulo": foi esse o convite que Hugo Possolo recebeu da organização do Festival de Curitiba e do Itaú Cultural. Mas o que, afinal, poderia representar a cidade tão multifacetada? "Depois de quebrar a cabeça um pouco percebi que só poderia ser o Angeli", diz o diretor. "Essa conexão com a realidade que ele nos oferece diariamente pelo jornal com suas obras."

Em Parlapatões Revistam Angeli - que tinha sua estreia nacional programada para ontem na capital paranaense e depois segue para São Paulo -, Possolo alinhava a união entre sua companhia de comediantes, as criações do cartunista e a música de Branco Mello. Para a montagem, o titã criou uma trilha que inclui três canções originais. Todas em ritmo de rock pesado, tentativa de sublinhar o espírito de contestação que permeia as tiras de Angeli.

"Não dava para fazer um musical clássico, com a gente cantando e dançando, tinha de ter a atitude do rock'n'roll", pontua o encenador, que assina as letras das músicas e também está presente em cena, ao lado de Raul Barreto, Paula Cohen, Rodrigo Mangal e Hélio Pottes.

Ainda que Angeli tenha aceitado rapidamente participar do projeto, os Parlapatões precisaram correr contra o relógio para levantar a criação em menos de dois meses. "A direção do Festival nos disse que poderia ser só uma leitura. Mas fui visitar o ateliê do Angeli, ele me mostrou os originais. Me apaixonei de tal maneira que não teve jeito", revela Possolo, após um ensaio em que tentava ajustar incontáveis "últimos detalhes" antes da estreia.

No lugar de uma simples leitura, o grupo de palhaços paulistanos concebeu uma encenação com cadência acelerada e dezenas de trocas de luz e figurinos. Uma sucessão de quadros curtos por onde desfilam os personagens do cartunista da Folha de S.Paulo. "Lembra o que fizemos em PPP@WllShkspr.br, só que na época tivemos muito tempo de ensaio até chegar naquele resultado", considera o diretor.

Outra referência estética é o teatro de revista. O gênero tradicional da dramaturgia brasileira é composto por esquetes cômicos musicais. Também se caracteriza pelos comentários satíricos que faz a episódios políticos e sociais da época. Aqui, a trupe traz o "sabor do dia" ao não poupar o novo papa argentino nem as posições da Igreja sobre o aborto.

Mesmo em tom de brincadeira, os Parlapatões lançam-se em território arriscado. Sem pudor, valem-se de um humor politicamente incorreto, com menções a temáticas raciais e de gênero. "O problema não é o assunto do qual se fala, a questão é de que lado você está. Um sujeito como Angeli é vital para o Brasil hoje", defende o encenador.

Como não poderia deixar de ser, Possolo convoca à cena algumas das figuras mais emblemáticas do artista, entre elas, Rê Bordosa, Bob Cuspe e Os Escrotinhos. Já impregnados ao imaginário popular, eles surgem em diversos momentos ao longo da encenação. "Fui ler a obra completa do Angeli, trouxe os personagens que falavam mais ao meu coração, mas também aqueles que pareciam fazer mais sentido para o público de hoje."

Criações como Meia Oito passaram por esse crivo de escolha. A criatura que estampava as páginas da extinta revista Chiclete com Banana era uma sátira a um tipo comum nos anos da ditadura, o revolucionário apenas no discurso, não nas atitudes. "Não sei se ele consegue se comunicar com os mais jovens. Ainda assim, achei importante trazê-lo mesmo em uma participação mais curta", comenta Possolo. Essa aparição, no caso, está restrita justamente ao episódio da morte de Meia Oito. Em história publicada em 2007, o personagem foi definitivamente "enterrado" após ser atropelado por um caminhão de Coca-Cola.

É a figura do próprio Angeli que serve como linha condutora do espetáculo. Representado em diferentes idades - na infância, na juventude e na maturidade -, ele apresenta excertos do seu ideário. Também imagina o triste desfecho de alguns de seus personagens, como Bob Cuspe. "Deve ter acabado como gerente de uma loja de fast food."

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