Ângela Maria ganha o teatro

Com vocês, a rainha que canta! Assim Ângela Maria era anunciada nos palcos. Apelidada de Sapoti por Getúlio Vargas, aplaudida de pé por vários presidentes brasileiros e do exterior - o que lhe valeu também a alcunha de cantora dos presidentes -; homenageada pelo rei da Espanha no Cassino Estoril, em Portugal; elogiada por Louis Armstrong - "ela é maravilhosa" -; recordista em gravação de discos, mais de cem, Ângela Maria já fez participações em filmes como a co-produção Brasil/México Caminhos da Esperança e novelas. "Faltava o teatro", diz. Faltava, não falta mais. Ela estará no musical Diva, que estréia em 16 de janeiro no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). "Depois de ter feito tantas coisas na vida, é bom experimentar algo diferente."No espetáculo, que tem direção musical de Zé Rodrix, direção geral de Jacques Lagoa e no elenco oito atores, mais bailarinos (em número ainda não definido), ela vai interpretar o papel que melhor desempenhou em toda a sua vida - o de Ângela Maria. A diva do título será vivida por Luisa Thomé, que vai atuar no papel de uma cantora pobre, que sai de sua cidadezinha no interior para tentar a sorte na cidade grande. Diva participa de programa de calouros, imita seus ídolos, passa por dificuldades, canta em festivais e consegue, finalmente, atingir a fama. "A história de vida de Diva é também a de muitas cantoras brasileiras", observa Luisa.O texto do musical é assinado por Janaína Brizotti. A personagem Simone (Leila Lopes) serve de fio condutor para a história. Ao entrar no apartamento meio abandonado de sua tia Maria (Karina Barum), ela encontra um diário. Conforme lê, as cenas vão surgindo em flash-back. Aspirante a atriz, Maria dividia o apartamento com Diva na época das vacas magérrimas. Contam tostões para ir à feira. O recurso de folhear um diário permite idas e vindas no tempo. Num dado momento, Diva, já famosa, relembra dos tempos em que ela e Maria colocavam discos de Ângela Maria na vitrola. Nesse momento, em vez de imagens virtuais para reproduzir a memória, a grande diva vai entrar em cena em carne e osso cantando músicas de seu repertório, como Gente Humilde e a belíssima Vida de Bailarina."Acho que esse musical terá a importância de mostrar para a garotada de 16, 17 anos a qualidade da música popular brasileira das décadas de 50 e 60. Qualidade musical e poética. Hoje, a maior parte da música que a gente escuta está pobre, emoção zero, qualidade de letras zero", argumenta Luisa. "Num país sem memória como o nosso, é fundamental recontar a história dessas cantoras brasileiras."Ângela Maria concorda apenas em parte com a decantada "fragilidade" da memória nacional. "O público não esquece. Faço shows, ainda hoje, para 30 mil pessoas. Cantei para 50 mil pessoas no Recife no dia do meu aniversário (13 de maio). Em todos os lugares do Brasil encontro casas lotadas. A falta de memória está nos meios de comunicação. Não canto na televisão há dois anos. O rádio não toca meus discos. No Brasil, temos o problema do modismo. Se a cantora está na moda, é tocada. Do contrário, não. Sei como é isso, eu também estive na moda."Diva, a personagem, depois de muito lutar, também entra na moda. Mas o importante, no espetáculo, é que ela vai trazer de volta o repertório - e a memória - de cantoras como Dolores Duran, Elizette Cardoso, Dalva de Oliveira, Maísa, Elza Soares e Elis Regina. Luisa não teme cantar. "A gente deve ter senso crítico. Jamais ousaria aceitar um convite para fazer algo além dos meus limites. Eu já fui cantora, tinha uma voz boa. Não aceitaria o papel se não pudesse cantar direitinho", afirma a atriz que na década de 70 tinha até uma banda. "Chamava-se Stricnina. Cantamos no Barba´s, aquele bar do Nelsinho (filho do dramaturgo Nélson Rodrigues) e fizemos bastante sucesso", lembra.O elenco já está preparando o espetáculo numa das salas de ensaio do Teatro Sérgio Cardoso. Ali eles têm aulas de preparação musical com Tato Fischer. O cenário da montagem será assinado por J.C. Serroni. Mas o repertório do espetáculo ainda não está definido. "Havia um repertório esboçado, mas quando percebi que era possível ver em Diva muitas cantoras, resolvi trocar algumas canções e trazer para a peça o melhor da música feita no Brasil", diz Zé Rodrix.O trabalho do diretor musical neste momento é achar o lugar certo para cada canção. "Nesse vasto repertório dos anos 20 a 60, muitas músicas estão vivas na memória. Grande parte já foi regravada duas ou três vezes. São canções atemporais e marcaram tão fortemente o imaginário, que o público as reconhece imediatamente. Como grande parte jamais é tocada nas rádios, muitos só se dão conta dessa memória fortíssima no momento em que as ouvem. Quero que as canções escolhidas caiam como luva na história de Diva, seja por oposição, integração ou espelho."Rodrix não tem dúvida de que o espetáculo terá o poder de resgatar uma memória. "Mesmo que não sejam citadas nominalmente, a mensagem fica clara: uma cantora influencia a outra. Há uma constante passagem de bastão. Nas primeiras gravações de Elis, a influência de Ângela Maria é muito clara", diz o diretor que, assim como Tato Fischer, é um daqueles fãs de carteirinha da cantora. "É emocionante trabalhar com um mito", comenta Fischer.Apesar desse objetivo de "resgate da memória", os criadores garantem que o tom não será de nostalgia. "A gente se identifica com essa história", diz a jovem Karina Barum. "Todos nós, de alguma forma, nos identificamos com essa trajetória de luta por um sonho."

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