Angela Dip, do patético ao magnânimo, num barril

"Oi, tudo bem? Tudo bom, e aí como é que está?" Quantas vezes por dia você ouve estas perguntas e nem ao menos responder de maneira honesta? Será que alguém se importa com a resposta quando faz estas perguntas? Será que alguém te ama, alguém te quer? Na peça Por Água Abaixo, que estreou terça-feira na sala Arte do Teatro Brasileiro de Comédias (TBC), Angela Dip faz um monólogo com todas estas perguntas, e nenhuma resposta. Muitas e outras dúvidas existenciais além desta, são a chave para o texto criado por Angela inspirado na história de Annie Taylor, uma professora aposentada de etiqueta e dança que em 1901, aos 63 anos, desceu as Cataratas do Niágara, nos Estados Unidos, a bordo de um barril. "Era uma pessoa no limite da sua existência, ela tinha perdido o marido, estava aposentada e sem dinheiro. Pular da cachoeira em um barril foi o jeito que ela arrumou para melhorar de vida ou acabar de vez com ela", conta a atriz. "Ela foi a primeira mulher a fazer o salto e deu sorte de ter sobrevivido à queda. Com a publicidade que ganhou abriu um bar com fotos do seu salto, viveu bem por um tempo mas morreu pobre".O drama existencial do começo do século, cabe como uma luva para o ´modernismo digital´ que vivemos, com relações pessoais superficiais, o falso livre arbítrio do consumismo e a busca de novas religiões ou ideologias que dêem pistas de como sobreviver sem enlouquecer. Em uma ligação a cobrar para Deus a personagem critica a responsabilidade embutida no livre arbítrio numa metáfora para a sociedade de consumo.A história de Annie Taylor serviu como ponto de partida do projeto de encenação. Angela Dip já tinha o texto escrito e achou a história um bom gancho para montar a peça. "Eu já tinha escrito um texto sobre o desabafo de uma mulher verborrágica e crítica, num momento de solidão. Quando vi a história da professora aposentada achei que dava para montar a peça e o processo foi acontecendo sem nenhum planejamento", diz Angela. A agilidade do discurso ameniza a solidão dos monólogos e faz com que o público acompanhe as reflexões do enredo. O espetáculo dura apenas 35 minutos e não é nenhuma comédia. Não causa gargalhadas, apenas aqueles sutis sorrisos de entendimento. Apesar das críticas ácidas, o texto é dito com sutileza, emoldurado pelo bailado da atriz com o barril, sua única companhia em cena. Nele os momentos de tristeza e alegria se alternam rapidamente. Angela Dip consegue passear entre o patético e o magnânimo com o simples entrar e sair do barril. "Primeiro eu comprei um barril e mandei fazer cortar os fundos e a tampa. Conforme a gente ia ensaiando, eu e a Vivien (Buckup, diretora da peça) fomos descobrindo os movimentos e fizemos umas janelinhas nas laterais do barril. Quando fomos tirar as fotos para divulgação descobrimos outras posições e fomos incorporando à montagem até montar toda a coreografia da peça".Seus movimentos simétricos de pernas e braços dialogam com a personalidade em conflito da professora de etiqueta obcecada pela gramática. Os conflitos de personalidade levam a atriz à loucura, pelo óbvio caminho da consciência. E a plena consciência desta realidade faz com que a personagem fuja de toda esta ignorância e demagogia através do vôo das Cataratas do Niágara.A peça fica no TBC em curtíssima temporada. Em novembro Por Água Abaixo segue para o Festival de Artes Flórida - Brasil, em Miami. Por Água Abaixo - TBC/ Sala Arte (140 lugares). Texto de Angela Dip, direção de Vivien Buckup, cenário e figurino de Vivien Buckup e Angela Dip. R. Major Diogo, 315. Tel. 3115-4622. Horários: terças e quartas às 21 horas. Até 18 de outubro. Ingressos - R$ 10,00. Duração - 35 minutos. Censura - 14 anos. Ingressos por telefone: 0800109188. Estacionamento s/ manobrista: R$ 3,00, bar e café. Aceita cheques e todos cartões de crédito, tem acesso para deficientes físicos. www.novotbc.com.br.

Agencia Estado,

21 de setembro de 2000 | 00h55

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