ANGELA BASSET E AS RAINHAS DOS DIREITOS CIVIS

Betty e Coretta revê a improvável amizade das mulheres de dois ativistas rivais, Malcolm X e Martin Luther King

NANCY MILLS , THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

07 Fevereiro 2013 | 02h10

A história americana tem mais figuras emblemáticas além de Malcolm X e Martin Luther King Jr. Líderes dos movimentos pelos direitos civis no país, considerados "a segunda revolução americana", eles acabaram ofuscando muitos dos seus contemporâneos - incluindo as mulheres que faziam parte de suas vidas.

"Nós vimos esses homens inúmeras vezes", diz Angela Basset. "Mas na nossa história eles estão em segundo plano e as esposas é que se destacam", avalia.

A atriz de 54 anos se referiu ao filme para TV Betty e Coretta, que acaba de ser exibido. Angela interpreta Coretta Scott King, com Mary J. Blige no papel de Betty Shabazz. A história é um relato de como as duas esposas desenvolveram uma amizade, apesar da rivalidade dos respectivos maridos - depois dos assassinatos de Malcolm em 1956 e Martin Luther King em 1968.

Os dois morreram aos 39 anos. Coretta Scott King morreu vítima de um câncer em 2006, nove anos depois de Betty Shabazz, que faleceu em consequência de ferimentos provocados por um incêndio causado pelo seu neto. Assim, ambas tiveram décadas para se firmar como mulheres independentes e líderes de movimentos em prol dos direitos, e também manter uma amizade que teria frustrado seus companheiros, separados por desacordos envolvendo estratégias de ação e rivalidades políticas.

"As mulheres se conheceram depois que os maridos foram assassinados. Elas foram convidadas por uma convenção política de negros em Detroit para falar do legado de seus maridos e depois de conversarem surgiu a amizade que durou 15 anos.

O filme, que tem início pouco antes do assassinato de Malcolm, acompanha as duas mulheres e suas famílias durante os anos seguintes.

"Coretta vinha a Nova York frequentemente e se encontrava com Betty", diz Angela. "Li uma carta enviada aos filhos de Betty assinada por Tia Coretta."

Curiosamente, embora jamais tenha interpretado Coretta King, Angela Basset já havia feito o papel de Betty Shabazz duas vezes em filmes como Malcolm X, de Spike Lee (1992), e em Pantera Negra (1995).

Angela conheceu Coretta King em 2005 em um evento que homenageava as 25 afro-americanas que se destacaram nas artes e na defesa dos direitos civis. "Era uma pessoa magnífica, bela e afável. Uma mulher forte, gentil e paciente", recorda a atriz.

Angela passou as últimas décadas interpretando mulheres fortes. Fez o papel de Katherine Jackson, matriarca da família de cantores em Os Jacksons - Um Sonho Americano (1992) e Rosa Parks no filme para TV The Rosa Parks Story (2002). Recentemente dublou Michelle Obama num episódio dos Simpsons (2010).

Desde que foi indicada para o Oscar de atriz pelo seu trabalho como Tina Turner em A Verdadeira História de Tina Turner (1993), Angela sentiu-se atraída por papéis com mais substância. Interpretou uma mãe solteira em Os Donos da Rua (1991), uma mulher desprezada em Falando de Amor (1995) e uma guarda-costas em Strange Days (1995).

"Conheço e valorizo a história das mulheres. A história afro-americana, a história americana, a história do mundo. Mesmo quando erros são cometidos, lições podem ser aprendidas."

Angela dá a impressão de ser uma pessoa extremamente séria, mas ela insiste que é um equívoco. "Em público, eu me divirto, mas não me torno irracional", diz ela. "As pessoas que me conhecem sabem que sou uma pessoa engraçada, irreverente e desinibida", garante ainda.

Esse comportamento é mais em casa, lembra ela, quando está com o marido, Courtney B. Vance, e os gêmeos de 7 anos, Slater Josiah e Bronwyn Golden. "Interpreto histórias para meus filhos na hora de dormir. Quando eram pequenos, transformava tudo em música."

A maternidade chegou tarde para Angela, que tinha 47 anos quando os filhos nasceram de uma mãe de aluguel. A infância privilegiada deles é muito diferente da que ela teve.

Ela cresceu num conjunto habitacional em São Petersburgo, Flórida. Eram duas irmãs, filhas de mãe solteira que trabalhava no Departamento de Saúde, e complementava a renda limpando escritórios. "Minha mãe era pai e mãe ao mesmo tempo. Cresci numa época em que os professores realmente se preocupavam com seus alunos. Sem eles, o bairro onde vivia teria me levado para outros caminhos."

Angela estudou na universidade de Yale, em New Haven, onde se formou, e depois fez mestrado na Yale School of Drama.

"Decidi, já no primeiro semestre de faculdade, que seria atriz, não seguiria o caminho mais seguro, mas um caminho desconhecido e sem garantias."

Formada, ela foi para NY, onde conseguiu uma chance em 1985, quando participou da peça de J.E. Franklin, Black Girl. No mesmo ano estreou na TV, como convidada no programa Spenser - For Hire, e no ano seguinte no cinema como uma repórter de TV em F/X (1986).

Apesar de o cinema ser o seu objetivo primário desde 1991, ela sempre volta ao teatro nova-iorquino. Há pouco, atuou em The Mountaintop, de Katori Hall, cujo cenário é o quarto de hotel de Martin Luther, em Memphis ,na noite anterior à sua morte.

No próximo filme, Olympus Has Fallen, com Morgan Freeman e Gerard Butler, ela será a chefe do Serviço Secreto. "Não é uma tarefa que alguma mulher tenha assumido antes. Mas é onde as mulheres precisam estar. As mulheres têm de estar em toda a parte". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.