Anel bem ajustado

Com várias mudanças feitas pelo diretor Robert Lepage, Met exibe o ciclo completo de Wagner

DANIEL J. WAKIN , THE NEW YORK TIMES / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2012 | 03h09

Agora os deuses não precisam mais ter medo de escorregar ao entrar em cena, e Siegmund e Sieglinde viverão seus momentos íntimos mais perto do público. Além disso, os rangidos do palco diminuíram. Até sábado, o Metropolitan Opera montará três ciclos completos das quatro óperas que compõem o Anel do Nibelungo, de Richard Wagner.

Depois das apresentações de cada ópera individualmente nas duas últimas temporadas, o diretor Robert Lepage introduziu grandes mudanças. Recentemente, explicou em detalhes algumas dessas mudanças e avaliou que as críticas insistentes ao seu Anel são típicas de uma montagem que tem um número enorme de seguidores apaixonados.

Ele garantiu que agora, depois de estudar cada ópera individualmente, pode ter uma visão maior do conjunto do Anel, que tem mais de 15 horas de drama em música. "Analisando cada parte, as óperas têm um sentido diferente. Mas ao olhar o conjunto, a energia de uma começa a transbordar para a outra, e tudo começa a fazer sentido."

Lepage disse que decidiu refazer a montagem de "grande parte" do ciclo, mas que as mudanças estão principalmente nos detalhes. E deu exemplo: Na longa cena entre Siegmund e Sieglinde em A Valquíria, o casal agora fica mais tempo na frente do palco. "O espectador quer que eles estejam mais presentes."

Na montagem original do Ouro do Reno, os deuses entram em cena deslizando sobre um elemento inclinado do gigantesco palco, dotado de 24 plataformas que giram em torno de um eixo e podem subir e descer. Agora, eles apenas caminham pelo palco. "O sistema não funcionava."

A longa reforma do enorme maquinário faz com que os cantores se sintam mais seguros.

Lepage acrescentou que foi preciso resolver uma das principais falhas da montagem: os rangidos do palco de 45 toneladas na hora da troca dos cenários. Agora, as mudanças de cena são feitas quando o som da música é mais intenso. "Os primeiros testes foram concluídos com sucesso, e toda a estrutura foi bem azeitada no sentido literal do termo. Todo mundo que pisa no palco está mais calmo e sabe das limitações do maquinário."

O palco era sempre o principal alvo dos críticos ao se referirem à montagem, porque segundo eles favorecia os personagens, deixando a música em segundo plano. Para Lepage, os comentários negativos a respeito das grandes dimensões do palco muitas vezes são típicos dos espectadores que se concentram apenas na música, enquanto ele tentou também agradar aos "que amam o espetáculo da ópera".

E prosseguiu: "Mas há um grupo de puristas que dizem: 'Não queremos esta gente porque não sabe o que é a ópera.' Não contesto o que os especialistas dizem, mas também preciso entreter 4 mil pessoas. A questão é contar uma história."

Ele disse há os aficionados mal-humorados que sentam na poltrona "com a partitura no colo". "Essa gente vai assistir apenas a um concerto do Anel."

Lepage admitiu as falhas na sua montagem, mas disse que houve também "muita coisa boa". O principal objetivo da sua encenação foi afastar-se das interpretações modernas.

"O primeiro Anel apresentado em Bayreuth mostrava um mundo poético, o mundo mitológico", observou. "Em produções mais recentes, o Anel está sempre mergulhado sob camadas de conceitos sociopolíticos", lembrou. "As pessoas na Europa precisam deixar de lado esses preconceitos em relação a Wagner. Na sua época, ele afirmou muitas coisas erradas sobre os judeus. Hitler foi um dos seus principais admiradores. Sabemos disso. A Europa está tentando fazer as pazes com Wagner."

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