Andy Warhol, o outro lado da América

Exposição do artista na Estação Pinacoteca mostra como ele retratou o vazio e a violência do seu país

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S.Paulo

16 de março de 2010 | 21h06

A maior mostra brasileira do artista pop norte-americano Andy Warhol (1928-1987) poderá ser vista na Pinacoteca do Estado a partir deste sábado, 20. São cerca de 170 obras que traduzem a cultura pop norte-americana dos anos de 1960, além de 44 filmes que Warhol produziu em seu estúdio, The Factory.

 

 

Há desde a histórica série de retratos de celebridades como Marilyn Monroe à de ícones do universo popular americano como as latas de sopa Campbell’s, suas séries de pinturas mais famosas. A mostra tem curadoria de Philip Larrat-Smith, que também é escritor, e foi organizada com a colaboração do The Andy Warhol Museum, em Pittsburgh, EUA. Já passou por Bogotá, na Colômbia e por Buenos Aires, na Argentina.

 

Do pintor e cineasta norte-americano Andy Warhol (1928-1987) o curador canadense Philip Larrat diz que seu maior sonho era ser invisível para xeretar o quarto dos outros. "Ele era assumidamente um voyeur", diz Larrat, do Museu Andy Warhol de Pittsburgh, que trouxe 170 obras suas para a exposição Mr. America, a partir de sábado na Estação Pinacoteca. Nessa que é a maior mostra brasileira do artista pop norte-americano, o voyeurismo de Warhol é levado ao paroxismo. Há desde a histórica série de retratos de celebridades como Marilyn Monroe até cenas terríveis de acidentes automobilísticos, passando por imagens de suicidas atirando-se de prédios. No entanto, são os 44 filmes da exposição que devem provar definitivamente a vocação voyeurística de Warhol, o homem que mudou a arte americana nos anos 1960. Ele inaugurou esse capítulo da história ao mostrar o outro lado de uma América rica e miseravelmente desumana que começava a testar suas bombas de napalm no Vietnã. Ao reduzir o repertório iconográfico americano a celebridades e desastres, Warhol fez a crítica definitiva do que era essa América pop: vazia e violenta.

 

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Autocrítica. Mais do que uma crítica, o voyeur fez uma autocrítica, assumindo sua superficialidade sem pudor. Repetia como um mantra ser "profundamente superficial" quando lhe perguntavam como gostaria de ser visto: da mesma maneira como a Marilyn de seus quadros, ou seja, com o mesmo rosto indiferente, retratado em inúmeras e publicitárias variações cromáticas de tinta acrílica. Warhol começou a série um dia após a morte da atriz, em 1962. Foi uma homenagem um tanto ambígua. Apaixonado por estrelas de Hollywood desde criança, ele esvaziou o mito Marilyn nessas serigrafias que são ao mesmo tempo monumentos à pintura de superfície ? literalmente ? e uma crítica irônica à massificação, comparando a estrela a centenas de latas de sopa Campbell"s em sua paródia ao consumo.

 

Warhol é filho dileto daquilo que os filósofos Adorno e Horkheimer chamaram de "indústria cultural". Queria ser famoso e rico. Conseguiu as duas coisas. Uma série de retratos do cantor Elvis Presley, realizada em 1963, alcançou recentemente a fabulosa soma de US$ 100 milhões, posição que poucos artistas ocupam no mercado de arte ? Picasso, entre eles. Warhol não teve de morrer para atingir a estratosfera. Já em vida suas obras custavam uma fortuna. Ele queria pintar o "nada" e, ao buscar a essência do que seria esse nada, topou, no mesmo ano da morte de Marilyn, com outra imagem publicitária, eternizando-a numa série de 32 latas de sopa Campbell"s, hoje pertencente ao Museu de Arte Moderna de Nova York. Detalhe: Warhol, antes de se dedicar à carreira artística, foi designer, criou displays para vitrines de loja e trabalhou como artista gráfico, ilustrando matérias para as revistas Vogue e Harper"s Bazaar. Sua reputação cresceu ? e com ela a conta bancária do artista.

 

Metáfora. Aos 24 anos, quando fez sua primeira exposição, teve uma visão epifânica: Truman Capote. Ainda não era amigo do futuro autor de A Sangue Frio, mas o conhecia por cartas que enviava de Pittsburgh. Capote dizia que Warhol era obcecado por ele, que passava horas a fio diante de sua porta. Enfim, tornaram-se amigos e a exposição prova isso. O curador Philip aponta uma foto em que os dois aparecem juntos, vestidos de Papai Noel e chupando pirulitos. "Capote teve uma influência enorme sobre Warhol e posso mesmo arriscar que ele buscou uma correspondência visual para seus textos ." De fato, a primeira exposição do pintor, em 1952, trazia desenhos inspirados em contos de Capote. Mesmo a série de pinturas e serigrafias que fez sobre a cadeira elétrica, iniciada em 1963, conserva algo da atmosfera sinistra da literatura do amigo. A ausência do elemento humano nessas serigrafias é reforçada pela placa de silêncio afixada à porta da sala de execução, fazendo da série uma representação metafórica da indiferença do espectador diante da morte ? e do mórbido crime praticado pelo Estado.

 

Tudo isso levar a crer que Warhol era um artista politicamente engajado. Essa desconfiança é reforçada pelo retrato de Richard Nixon (reproduzido acima) com a irônica legenda "Vote McGovern", numa referência ao candidato democrata da campanha presidencial americana de 1972. Warhol distorce a imagem do candidato republicano com manchas lilás e verde, conferindo ao mesmo um aspecto diabólico. E estava certo. Dois anos depois, Nixon renunciou por seu envolvimento no escândalo Watergate. Warhol sabia onde pisava. E o que pintava.

 

 

Andy Warhol - Estação Pinacoteca, Largo General Osório, 66, Luz. Tel: 3335-4990. 10h/18h (fecha 2.ª). Abertura dia 20 de março, sábado, a partir das 12h. Em cartaz até o dia 23 de maio de 2010.

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