Alex Silva/AE
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Andrei Andreiévitch dá sua visão familiar do grande Tarkóvski

Filho do cineasta russo visita a redação do 'Estado' e concede entrevista à TV Estadão

LUIZ CARLOS MERTEN E FLAVIA GUERRA - O Estado de S.Paulo,

19 Outubro 2012 | 03h03

Quando Andrei Andreiévitch Tarkóvski nasceu, seu pai preparava Solaris. Sua mãe era assistente do grande diretor - de Andrei Roublev a O Sacrifício, seu último filme - e o bebê, depois menino, frequentava os sets. O cinema fazia parte de sua vida, mas Andrei Andreiévitch nunca teve consciência disso. Do que se lembra é que não tinha amigos de sua idade. A relação com o pai era intensa, e especial. Quando Tarkóvski não estava filmando, adorava sair com o filho. Mas não o tratava como criança. "Meu pai me dizia coisas sérias, profundas, que não entendia na época. Só muito tempo depois comecei a me dar conta de algumas delas."

Andrei Andreiévitch visita a redação do Estado. Veio para gravar um depoimento para a TV Estadão. E agora, no final da tarde de quarta-feira, concede uma entrevista. Ele está no Brasil acompanhando a exposição dos polaroides de seu pai. Quatro delas ilustram o cartaz da Mostra. Animadas, compõem a vinheta que, desde ontem, na sessão para convidados, e a partir de hoje, nas sessões para o público, vão preceder todos os programas. Fotos de paisagens, mas numa delas está o garoto, Andrei Andreiévitch, e em outra o cachorro.

"Dak era o cachorro de meu pai. Fazia aniversário no mesmo dia que ele. Era inteiramente devotado à família. Ai de quem chegasse sorrateiramente perto da gente." Andrei Andreiévitch viaja nas lembranças. Ele fala inglês, francês, russo - claro - e italiano. A conversa é feita na língua de Dante e Luchino Visconti. As palavras conferem uma dimensão mais próxima - intimista? - a este relato de um filho que aprendeu a admirar cada vez mais o pai que morreu quando ele tinha 16 anos, quase 17. Andrei Andreiévitch mora em Firenze (Florença), daí o italiano. Dirige a Fundação Andrei Tarkóvski. Realiza documentários - sobre o pai - e pintura, assunto que o atrai. Escreve bastante.

"São notas que terminam servindo para algum trabalho, contos." Não pensa em publicar. "São coisas que escrevo para mim, não creio que possuam grande qualidade literária." Escrever talvez seja alguma coisa que ele herdou do pai. Tarkóvski escrevia muito. Quando não estava filmando, estava escrevendo. Era obcecado pelo tempo e chegou a escrever um livro - Esculpir o Tempo - cujo título carrega sua definição de cinema. Solaris, O Espelho, Stalker, Nostalgia, Tempo de Viagem, O Sacrifício. Andrei Andreiévitch tinha 2 anos, 4, 9, 13, 16. As lembranças nebulosas tornam-se mais nítidas. "O que mais me lembro disso tudo é que meu pai era muito meticuloso. Filmava com precisão. Em geral, dispunha de pouca película. Quando foi fazer O Sacrifício, deram-lhe tanta película que ele brincava - o que vou fazer com tanto filme?"

Cada cinéfilo tem o seu Tarkóvski de preferência, que pode ser Andrei Rublev, O Sacrifício. O de Andrei Andreiévitch é a ficção científica Stalker. "O filme foi feito em circunstâncias especiais, numa época difícil para ele. Acho que é o filme que melhor expressa meu pai. Sua luta interior, suas dificuldades com o regime (comunista). Sinto-o inteiro na fábula filosófica de Stalker." Andrei Andreiévitch pisa pela primeira vez nas Américas. Mas ele tem corrido o mundo mostrando a obra e discutindo o legado de seu pai. Confessa que se surpreendeu com o interesse da Mostra. O evento abriga a exposição dos polaroides de Tarkóvski (no Masp), o lançamento de livros (incluindo o lançamento de um luxuoso álbum/catálogo da exposição) e uma retrospectiva.

Os filmes serão todos exibidos em película, 35 mm. "Hoje em dia, tudo está sendo digitalizado, mas os filmes de meu pai que mantemos na fundação estão em película. Foi o suporte em que ele trabalhou, como os concebeu. Quero conservá-los (os filmes) assim." Por que a surpresa pelo interesse da Mostra? "O Brasil é tão distante, parece outro mundo. Mas, na verdade, não somos tão diferentes. O brasileiro me parece ter uma vitalidade e euforia que os russos compartilham, só que em outro contexto. O que mais me impressiona é a juventude. A Europa é velha, o Brasil é jovem", ele resume.

Os repórteres lhe pedem que fale um pouco em russo. Só pela sonoridade, porque não vão entender nada. Ele fala. O assunto surge naturalmente. Nos filmes de Sergei Bondártchuk - Guerra e Paz -, cada vez que os personagens falavam na mãe (matka) Rússia, irrompiam sinos, violinos. Tarkóvski vivia em guerra com a burocracia soviética e a censura do regime. Bondártchuk era o cineasta oficial. "Não gosto dos filmes dele, mas representam uma época do cinema e da sociedade soviéticos." A crítica ao regime leva automaticamente a Sergei Loznitsa, outro russo que também está sendo homenageado com retrospectiva pela 36.ª Mostra. O tom agora é outro.

Loznitsa faz um cinema crítico. Expõe a Rússia violenta do czar Vladimir Putin. "Aquilo é só uma fachada de democracia", reflete Andrei Andreiévitch. Ele permanece no Brasil até o dia 24. Talvez vá ao Rio. A prioridade é ver filmes. "Na Itália, o circuito é inteiramente voltado para os blockbusters. Para ver filmes de autor, ou que não sejam norte-americanos, só em DVD." Andrei Andreiévitch veio ao lugar certo. A Mostra lhe abre uma janela para o melhor cinema do mundo.

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