Andersen reconhece a arte de Roger Mello

Ilustrador recebe título inédito no prêmio que é considerado o Nobel do gênero

Clarice Cardoso, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2014 | 21h10

Foi um desses momentos em que o cerimonial tem de abrir espaço para a emoção. Na segunda-feira, na abertura da Feira Internacional do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha, o presidente da The International Board on Books for Young People (IBBY), Ahmad Redza Ahmad Khairuddin, anunciou a japonesa Nahoko Uehashi como a autora vencedora do prêmio bienal Hans Christian Andersen, o mais antigo e prestigiado para autores infanto-juvenis.

Então, chegou a hora de dizer o resultado da categoria ilustração. Quando Khairuddin pronunciou o nome do brasiliense Roger Mello, a celebração tomou conta da sala. “O presidente não pôde terminar de falar, os brasileiros já comemoravam. O chão tremeu”, conta Mello, ao Estado, da Itália.

Razões para o júbilo não faltavam. A data ficará marcada na história dos livros para jovens e crianças. A começar pelo fato de o Brasil ser o país homenageado desta edição da feira, o que já coloca em destaque nossos autores. Mais que isso, Mello é o primeiro brasileiro (e latino-americano) a vencer nesta categoria o prêmio que, este ano, completa cinco décadas. Com a láurea, consagra-se ao lado de Lygia Bojunga e Ana Maria Machado, vencedoras como autoras em 1982 e em 2000 no que é tido como o Nobel infanto-juvenil.

“O reconhecimento atrai ainda mais o olhar internacional para a nossa produção. Já havia um interesse imenso pelos nossos textos por conta de Lygia e Ana Maria, mas, agora, a atenção está na ilustração. São inumeráveis os artistas locais de talento que fazem um trabalho instigante e difuso”, celebra Mello, que foi finalista no Andersen nas últimas três edições.

Já nesses poucos dias desde o anúncio, sete países o convidaram para palestras e exposições de sua obra. Já há até sondagens da China para adquirir alguns livros. Oficialmente, nenhum acordo foi fechado ainda.

Em sua apreciação, o comitê descreve a beleza e a sutileza dos traços de Mello. “Ele não subestima a capacidade da criança de reconhecer e decodificar os fenômenos culturais pelas imagens, guiada pela imaginação”, afirma o texto, que prossegue: “Por intermédio de suas histórias coloridas, o jovem leitor ganha um entendimento mais profundo da própria cultura e daquelas ao redor do mundo”.

Mello diz identificar-se com as palavras do júri. “Signos que simbolizariam o Brasil poderiam ser estereotipados, mas não são. Fugi disso. É a ideia de retratar sua aldeia e conseguir dialogar com o mundo. Quando se trabalha com narrativa infantil, é preciso escapar de todo modo, ter pavor de todo estereótipo ou preconceito que limite a criança de qualquer forma.” Para o mais novo vencedor do Andersen, há ainda a questão do autor viajante, que é, inclusive, uma tradição do Brasil, que remete a O Turista Aprendiz, de Mário de Andrade.

Com o título, reconhece-se a confiança e o respeito de Mello pela criança leitora em obras que não limitam suas possibilidades de interpretação nem suas incontáveis narrativas internas. Mais que tudo, é ainda um reconhecimento do trabalho de autoria dos ilustradores, o que é especialmente forte no caso de belos livros de Mello como Carvalhada de Pirenópolis (Nova Fronteira), Zubair e os Labirintos e Carvoeirinhos (ambos pela Cia das Letrinhas). Por sua obra, recebeu diversos títulos da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.

“O ilustrador é também um autor. E ao júri não interessa somente a arte visual pela estética, mas sua relação com o elemento narrativo, mais que como exercício de estilo. A ilustração não pode ser apenas decorativa ou arrojada, tem de abrir possibilidades para que a criança interfira na leitura como um ser criativo.” A formação desse leitor é essencial se pensarmos, diz Mello, em ainda outra questão. “A criança aprende melhor em todos os lugares em que o livro se faz presente. E não há jeito de mudar o País que não comece pela leitura e pela educação.” 

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