Nana Moraes/Divulgação
Nana Moraes/Divulgação

Andersen para todas as idades

Gabriel Villela dirige Luana Piovani em O Soldadinho e a Bailarina, que vem do Rio e estreia sábado

Crítica: Dib Carneiro Neto, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2010 | 00h00

Gabriel Villela, convidado por Luana Piovani, voltou ao gênero infantil na sua melhor forma. E, o que é melhor, mais uma vez faz teatro para todos, capaz de igualmente encantar os pequenos e arrebatar os adultos. A força do simbólico encanta desde a primeira cena. Tudo é sugerido, nada é explicitado. Fantasia no mais puro estado de emoção.

O Soldadinho e a Bailarina, adaptação musical do conto O Soldadinho de Chumbo, de Hans Christian Andersen (1805-1875), assinada por Gustavo Wabner e Sergio Módena, tem uma estrutura coletiva muito bem trabalhada pelo diretor, que faz Luana abandonar o protagonismo sem deixar de ser estrela. Na adaptação de Wabner/Módena, os personagens secundários de Andersen existem em pé de igualdade com a bailarina de Luana, daí o grande acerto. Apesar do encantamento de princesa que a personagem tem, ela é mais um dos brinquedos no quarto abandonado de um menino chamado Euclides. Villela, com sua reconhecida tarimba na direção de atores, apagou de Luana todo o bem-intencionado ímpeto de ser, em cena, mais uma "rainha dos baixinhos". Fez com que atuasse sem arroubos, sem infantilismos, fez com que esquecesse o equivocado tom tatibitate de quem pensa que atuar para criança exige fazer concessões de linguagem.

A exemplo do filme Toy Story, que também foi beber na fantasiosa fonte de Andersen, inteligentemente a adaptação de Wabner/Módena se firmou no foco dos brinquedos desprezados, que procuram alguém que ainda os queira, mesmo depois de velhos, gastos, ultrapassados. A dor nas costas da bailarina Sofia (dor sempre sugerida por Luana com gestos curtos e brincalhões, nada naturalistas) confere a ela uma fragilidade que é tocante e a humaniza. Como o soldadinho Perneta, Pablo Áscoli - vergando uma impecável jaqueta de couro customizada - transita bem entre o ideal do amor romântico e a fragilidade sugerida por um personagem que é marginal e diferente, e sofre toda sorte de preconceitos - temática cara a Andersen e que faz esse soldadinho Perneta ser irmão de alma do Patinho Feio (aproximação que parece ter sido bem compreendida por diretor e ator).

Achado. Outro maravilhoso achado dos adaptadores é o personagem da Harpa desafinada, que a direção soube valorizar com lances brilhantes: seja nos números rápidos de canto lírico, seja no figurino cru imitando as cordas do instrumento, tudo é de uma simplicidade funcional e deslumbrante. Nesse papel da Harpa, Janaina Azevedo arrebata o público com sua voz potente.

Coadjuvantes também carismáticos são Daniel Maia, no papel de um boneco velho e desconjuntado (com uma voz forte que lhe permite articular as palavras com rigor de mestre), e Ando Camargo (prêmio APCA de melhor ator por Era Uma Vez Um Rio), que dá a medida certa de humor ao seu Prestimoso, ursinho que não consegue mais soltar música quando aperta a própria barriga, mas solta outra coisa, pum!, e cativa as crianças, sobretudo as menores. Não se pode esquecer também de outra ideia luminosa entre os coadjuvantes: o personagem Edegás (vivido por Marcello Boffat). Ele é um pintor divertido, numa referência a Degas, sem que isso vire aquele tipo de aula didática das produções infantis mais equivocadas.

Síntese. Há cenas de um poder de síntese incrível, o que, com certeza, intriga a garotada (e como isso é saudável!). Por exemplo: como encher o palco com 25 soldadinhos de chumbo, como está descrito no conto original? Villela faz um único ator (Jaderson Fialho) girar em torno de si e ir respondendo a uma chamada oral da Harpa (cena que remete de forma lúdica ao universo escolar das crianças): ele responde por Chumbovaldo, depois o Chumbrésio, o Chumbento, o Chumbernildo, o Chumbrósio e assim por diante. Pronto, o exército de soldadinhos, criado pelos adaptadores com todos esses nomes de trocadilhos brincalhões, surge completo na imaginação de cada um na plateia.

Criaram-se, também, marcações de uma beleza plástica calculada, para encher nossos olhos de fantasia, como a bailarina andando no fio de equilibrista ou o carrossel humano que os atores formam em determinado momento, nos transportando aos velhos parques de diversão de antigamente. Para tudo isso, Gabriel Villela contou com os auxílios luxuosos do iluminador Domingos Quintiliano, da coreógrafa e preparadora corporal Kika Freire e da fonoaudióloga e preparadora vocal Babaya. Com essa equipe forte, o diretor buscou elementos de Commedia dell"Arte, do teatro itinerante, da poeira da estrada, da serragem do circo-teatro. O visual milimetricamente pensado, em cada palmo de tecido bordado, trabalha em contraste com a leveza das cenas e o desenho delicado da trama. Há também referências sutis e subliminares à cultura czarista dos balés e à disciplina de caserna dos soldadinhos.

Cena do balcão. Esta nova peça sobretudo é uma volta de Villela ao seu internacional Romeu e Julieta, feito para o Grupo Galpão, de Minas, e que acabou encenado na Inglaterra, entre outros países. Não falta nem mesmo a cena do balcão, em que, como os amantes de Verona, os dois brinquedos apaixonados também refletem sobre o amor com base nas inconstâncias da Lua.

E tem os guarda-chuvas estampados pelo diretor, que também assina figurinos e cenografia (quase toda criada com papel-arroz). São um show à parte. As águas-vivas do fundo do mar são sombrinhas encapadas com plástico-bolha, num efeito mágico deslumbrante. O balcão, por exemplo, da cena shakespeariana, é representado por outra imensa sombrinha que se interpõe como barreira entre os dois apaixonados (foto). E mais: o leque de uma das baratas vira a barbatana do peixe que engole o soldadinho. O papel-bolha do corpo do peixe vira mar por onde navega o barquinho, que depois vira chapéu na viagem de volta para casa do soldadinho Perneta. É emocionante ver tudo se transfigurar em cena, porque são improvisos lúdicos que toda criança de imaginação saudável tem de saber criar, mesmo que viva num quarto abarrotado de brinquedos eletrônicos de última geração.

1) BELA TRILHA JÁ VIROU CD

O fato de ser um musical faz desse O Soldadinho e a Bailarina uma pérola antológica. Villela importou de sua Minas Gerais o mestre e maestro Ernani Maletta (arranjos vocais, preparação e regência de coro) e o uniu ao jovem compositor carioca Victor Pozas, fazendo-os assinar juntos a direção musical.

O resultado: a trilha ficou tão especial que já virou CD, pela Som Livre, com as interpretações do próprio elenco. São singelos e contagiantes os arranjos para as canções de domínio público, como Roda Margarida, Marcha Soldado e Moreninha, Se Eu Te Pedisse, com as letras adaptadas por Sergio Módena.

E combinam muito bem com as composições originais do espetáculo, criadas especialmente para esta peça, como a deliciosa Valsa da Bailarina ou a divertidíssima Cabaré Deliré. Apenas Navega, que narra a queda do soldadinho num riacho, não consta do espetáculo. É um extra.

Entre as pesquisas de sons interioranos, serviu de perfeita inspiração o trabalho musical dos Meninos do Araçuaí, de Minas Gerais.

2) PANOS DO LESTE EUROPEU

O figurinista Villela, de criatividade ilimitada e sem fronteiras, trouxe do Leste Europeu os tecidos de linho (húngaros) para o vestido da bailarina (foto), entre outras peças inesquecíveis, recriadas por ele e bordadas por Giovanna Villela com o auxílio da aderecista Veluma Soárry e da costureira Aldecy Santos. Um achado é, ainda, a roupa de franjas vermelhas do vilão (o Boneco de Molas, feito com garra por Maurício Souza Lima), que, ninguém imagina, logo depois vira a fogueira repleta de labaredas onde ardem os dois namorados, num final infeliz que a peça fez questão de manter - mas manteve de uma forma poética, que arranca lágrimas pela delicadeza de sua concepção.

3) INÍCIO RESUME A FÁBULA

O início do espetáculo é um belo tributo a Hans Christian Andersen, que escreveu esse conto aos 33 anos, em 1838. Todo o elenco entra em cena com as cabeças cobertas por papéis sulfites, em que se desenharam rostos de crianças, num traço primário que cada um de nós na plateia pode tranquilamente identificar como o seu próprio jeito de desenhar na infância. E eis que a atriz Germana Guilhermme, como se fosse o próprio Andersen, em apenas dois minutos resume todo o conto original, inclusive narrando o final infeliz e anunciando que uma versão da história está prestes a começar. É uma reverência respeitosa a um gênio da literatura universal, um jeito bonito de valorizar a origem da fábula e, ao mesmo tempo, ajudar a perpetuá-la ainda mais, num recurso esperto da direção que, já de saída, nos antecipa toda a competência que se desfilará a seguir. Gabriel Villela comprova o grande esteta da brasilidade que ele é, mais especificamente dos arroubos barrocos mineiros, esse exercício sábio de iluminar contrastes. O Soldadinho e a Bailarina nos enche os olhos.

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