Andarilho que veio do Suriname

Clarence Bekker, que já esteve no Brasil no ano 2000, com uma mochila e um violão nas costas, e ganhou uma grana tocando em Ipanema, falou ao Estado sobre sua expectativa para a turnê do Playing for Change.

Jotabê Medeiros/AE, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2011 | 00h00

É uma voz privilegiada e também uma figura divertidíssima, bonachona - chegou a dizer que, em sua carreira solo, na Europa, tem gravado discos de tecno. Logo após tocar no JazzFest de New Orleans, Clarence falou ao Estado no gramado de Fairgrounds, o local dos shows.

Ouvindo sua música, a gente tem a impressão de que é world music, mas na verdade são blues e soul music.

Eles dizem world music para encaixotar, mas para mim, tudo que tem qualidade é world music. O que vem do coração é sempre world music, é um presente do mundo. Sei que parece baboseira dizer isso, mas é a verdade.

Como foi para vocês começarem o trabalho como uma banda, já que todo mundo teve uma carreira nas ruas, tocando no meio do barulho, sempre em ações individuais?

A coisa mais básica é que são todos bons artistas. Mesmo alguns sendo melhores que os outros, é como uma família. Sempre tem mais gente chegando, e mesmo com as mudanças as pessoas vão logo se sentindo em casa, tem uma proximidade natural. A gente dá o nosso melhor e vai construindo algo. Não trabalhamos duro, mas nos sentimos satisfeitos com o resultado.

Você impressiona cantando soul music, é como se tivesse vindo das grandes escolas americanas, como a Motown...

Eu não estudei música, ninguém aqui estudou. Éramos pobres, não havia jeito de estudar música. Então, o talento teve de se encarregar de tudo. É aquela história: você aprende cantando no bar, na rua, na praia, na estrada. Eu integrei uma grande banda aos 18 anos, e aquela experiência me aproximou da música de Marvin Gaye, Stevie Wonder, The Temptations. E o que é definitivo é que eu adoro entreter as pessoas. Adoro dançar. Somos da América do Sul, não? Não é preciso escola para isso, dançar é parte do que somos. E aqui estou, dançando e cantando.

Agora, o Playing for Change está ficando cada vez mais profissional, vai tocar no Marrocos, ganhou a adesão do baixista de Baba Maal. Isso não intimida?

Absolutamente. Eu tenho confiança em minha performance. Se você é um artista, você não tem medo de nada. Quando você não é um artista, é melhor cair fora do palco. O que acontece é que, além de tudo, nós nos divertimos. Não sei o que esperar dessa turnê no Brasil, mas sei que todo brasileiro que eu conheci gostou da minha voz. Isso já é um bom começo.

* O QUE VEM POR AÍ

O irmão mais velho do clã Marsalis, o trombonista Delfeayo Marsalis, fechou contrato para vir ao Brasil em agosto. Delfeayo deve se apresentar com um sexteto no Bourbon Street Music Club. Também estará na jornada o grupo Dirty Dozen Brass Band, que existe desde 1977. A violinista Amanda Shaw, de 20 anos, é outra que se apresentará na temporada do Bourbon em agosto. Além deles, o figuraça Natham Williams & Zydeco Cha-Cha está para fechar seu primeiro show ao Brasil. Ídolo sulista, o sujeito vive a maior parte do tempo em um ônibus.

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