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Andar com fé

Possivelmente, a saída da armadilha de sermos seres tão crentes seja... mais crença

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2021 | 03h00

As pessoas têm fé. Crer é humano. Talvez o reverso da moeda seja verdade e sejamos humanos porque cremos. Não me leve a mal o leitor ou leitora menos devoto ou indiferente. Não me refiro à crença em Deus ou em deuses. Acreditar, realizar o que se chama de salto de fé, é muito maior do que qualquer um de nós pode conceber. 

Exemplo banal, porém verdadeiro: a estatística mostra que dirigir em estradas no Brasil é perigosíssimo. Perdemos cerca de 80 conterrâneos diariamente em acidentes de trânsito: 30 mil vidas por ano, em média. Mais de 5 mil deles apenas no Estado de São Paulo. Ou seja, por prudência, não deveríamos andar de carro por aqui. No entanto, o fazemos. Diariamente. Todos nós entramos em nossos veículos, distraídos, apressados, benzendo-nos, mas embarcamos certos de que, conosco, naquele dia, nada ocorrerá. São números assombrosos e seguimos confiantes. Dirigir, como vemos, é um ato de fé.

Há outra dimensão da convicção absoluta. Quase tudo que vemos (e que não vemos) ao nosso redor é criação nossa. Os veículos, os prédios, as coisas tangíveis são, obviamente, produtos humanos. Há criações que, de tanto acreditarmos nelas, parecem naturais, atemporais, que sempre estiveram lá, como o dinheiro, o casamento ou a democracia. Nada disso é fruto da natureza e, em todas, necessitamos crer para ver. Imaginem um alienígena chegando para nos visitar. Por maior que fosse seu espírito antropológico e sua real vontade de nos entender, qual seria sua surpresa ao se deparar com seres que amanhecem acreditando que ao chamarem um carro por um botão de celular ele aparecerá. Ou... que temos um sistema no qual votamos uns nos outros para que o eleito represente os ausentes. 

Não me interpretem errado. Dizer que algo é uma invenção, que não existe em si, que faz parte de um sistema ultraelaborado de crenças não é dizer que ele não seja real. A democracia e o casamento são reais. Traia seu cônjuge e tente puxar da manga a carta de que a monogamia é uma invenção, uma convenção boba. A reação será a medida. Yuval Harari chamou esse tipo de crença humana de grandes ficções. Mesmo nos momentos que se tornaram solenes na memória histórica, como nas declarações de independência, abunda crença: é um pacto de fé achar que um punhado de terras, daquele momento em diante, ganhará uma fronteira, que delimita cidadãos que ali nasceram de estrangeiros que vieram ao mundo 5 cm ao lado. Não à toa, o segundo parágrafo da norte-americana começa com “Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas”. Se tem que explicar é porque tais verdades não são tão autoevidentes assim. Mais interessante é perceber que essa é uma ficção compartilhada. Um historiador norte-americano, David Armitage, já afirmou que a declaração era tanto de independência quanto de interdependência. Se os demais países do mundo, invenções mais antigas, não acreditassem no que era ali declarado, de que valeria buscar a soberania? Com quem fariam comércio? Para quem destinariam seus produtos? Como sobreviveriam? A Inglaterra não acreditou no texto e a guerra tomou anos. Se o texto era de 1776, a antiga metrópole só passou a acreditar na nova nação em 1783, pelo Tratado de Paris. Séculos depois, quem não acredita nos Estados Unidos?

Voltemos ao início e retomemos o que já descobrimos juntos: crer é fenômeno humano, todos acreditamos em ficções complexas que sustentam nosso dia a dia. Pergunta decorrente: isso é bom? Crer é positivo? O mesmo mecanismo que me faz acreditar em um deus, numa constituição ou que um papel colorido com um desenho de um bicho que tenho na carteira pode ser trocado por comida não seria o mesmo que me faz crer em tratamento precoce para covid, em fake news e que há salvadores messiânicos em política?

Sim, infelizmente é o mesmo. Escolhemos fés, herdamos outras, podemos modificar muitas delas. Possivelmente, a saída da armadilha de sermos seres tão crentes seja... mais crença. Ao entender que a grande maioria das coisas que me cercam não é natural, porém criação humana, não preciso, necessariamente, ser cético.

Posso, num salto de fé, acreditar que podem ser melhoradas. Ninguém sabe se o serão. Talvez não o sejam. Acreditar que possam ser é o X da questão. Vejamos mais um exemplo que já consta do texto: identificando tantos acidentes de carro, podemos pensar em formas mais seguras de dirigir, algoritmos que impeçam colisões, veículos capazes de absorver impactos, poupando seus ocupantes. Podemos legislar (outra invenção maravilhosa!) sobre velocidades máximas, entender que, em mobilidade urbana, transporte de massa é mais interessante do que carro. Enfim, podemos imaginar futuros alternativos melhores, buscar formas concretas para que se tornem realidade. Ainda que nunca se concretize o futuro sonhado. Com a democracia, o mesmo: ela é fruto de nosso engenho, de novas e constantes pautas, de lutas, de uma constante busca por vivermos juntos e melhor. Há enormes problemas e, ao tentar consertar um furo, descobre-se outro, por vezes. Como o carro: podemos imaginar mil melhorias, mas ele, mesmo infinitamente mais seguro, ainda polui.

Mesmo assim, tenhamos fé nessa invenção. Sem democracia, sem leis, experimentaremos problemas mais sérios. Achemos um jeito de manter essa deusa e seus fiéis, sempre reformando o templo em que nos reunimos. Jamais o derrubando. Sempre com esperança. 

É HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, AUTOR DE ‘A CORAGEM DA ESPERANÇA’, ENTRE OUTROS

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