Análises de Mitos da Era Medieval

Versatilidade marca Os Três Dedos de Adão, de Hilário Franco Júnior

Elias Thomé Saliba, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2010 | 00h00

Imagens de um Adão engasgado, com a mão direita entre o pescoço e o peito após ingerir o fruto proibido, foram comuns em toda a iconografia religiosa medieval. Mas o Adão engasgado, representado num dos capitéis do antigo mosteiro de San Juan de la Peña, nos Pireneus, até hoje chama nossa atenção, pois ele faz o mesmo gesto utilizando apenas os três primeiros dedos. Como explicar esta representação inusitada do gesto de arrependimento? Entre muitas, esta é uma das questões da mitologia medieval, detalhadamente examinada por Hilário Franco Júnior em Os Três Dedos de Adão, que reúne ensaios publicados ao longo de 13 anos.

Da iconografia românica do fruto proibido ao relato da existência de Joana - uma papisa - no século 11, o historiador demonstra sua enorme versatilidade tanto na análise mais global das narrativas, quanto na sondagem do local e do miúdo, frequentemente amealhados pela profusão de imagens da época medieval. Territórios que a historiografia sempre penetrou com cuidado, talvez devido ao fato de que a quase totalidade desses mitos vinham do cristianismo. Mas, afirmar que o cristianismo possui uma mitologia não é necessariamente negar o conteúdo de sua mensagem. É mostrar que tal mitologia nasceu em sintonia fina com os padrões culturais da época, que propunham transmitir valores, não através de conceitos abstratos mas de relatos essencialmente emotivos e analógicos. A literatura medieval possuía um alto índice de oralidade e as narrativas passavam por um longo estágio oral antes de serem transcritas.

Mas não há nada de fortemente conclusivo nas interpretações do historiador, que, como sugeriu Carlo Ginzburg, se esforça por decifrar indícios e pistas que se perderam nas espirais do tempo, alterando tanto o significado das palavras e das imagens, como a repercussão dos mitos na sensibilidade coletiva. E o próprio ensaio que dá título ao livro, já exemplifica este misto de pesquisa arqueológica e de aventura antiquária que é estudar a mitologia medieval. A imagem dos três dedos de Adão seria uma metáfora da representação dos três fragmentos eucarísticos do novo Adão na liturgia romana. Um recurso sutil, através do qual os monges de San Juan de La Peña, expressaram o desacordo da comunidade monástica em relação à nova liturgia.

É claro que outras explicações são possíveis. Mas só esta já basta para aguçar o apetite do leitor para esta pequena e saborosa enciclopédia de mitologia medieval.

ELIAS THOMÉ SALIBA É PROFESSOR DE TEORIA DA HISTÓRIA NA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE RAÍZES DO RISO (COMPANHIA DAS LETRAS)

OS TRÊS DEDOS DE ADÃO

Autor: Hilário Franco Júnior

Editora: Edusp

(416 págs., R$ 65)

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