Paulo Pinto/Estadão
Paulo Pinto/Estadão

Análise: Tônia Carrero, ícone de classe e elegância na TV e no teatro

Atriz se destacou na carreira pelo requinte proeminente na interpretação de seus personagens

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 Março 2018 | 08h22

Completaram-se em 2017 os 70 anos da estreia de Tônia Carrero no cinema – ela tinha 24 anos quando fez, na Vera Cruz, Querida Suzana, com direção do italiano Alberto Pieralisi. Não é um filme que disponha de boa reputação - chegou a ser considerado o pior de 1947, mas Tônia é um assombro de beleza e contracena com o maior galã da época, Anselmo Duarte. Cinco anos depois, Tônia e Anselmo fariam dupla em Tico-Tico no Fubá, e dessa vez a receptividade foi estrondosa. O filme dirigido por outro italiano, Adolfo Celi, ostenta até hoje a reputação de ser um dos melhores da Vera Cruz.

+ Tônia Carrero morre aos 95 anos no Rio

Tônia nasceu Maria Antonietta de Farias Portocarrero, no Rio, em 1922. Filha de um general, neta de um marechal – o Barão de Forte de Coimbra –, a garota graduou-se em Educação Física. A arte pode não ter vindo diretamente do primeiro marido, o artista plástico Carlos Arthur Thiré, com quem teve o filho Cecil Thiré. Mas acompanhá-lo quando foi viver na França permitiu a Tônia estudar interpretação em Paris. Estreou em 1949 no Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, em São Paulo, em Um Deus Dormiu Lá em Casa, com Paulo Autran. Já separada de Thiré, e casada com Celi, fundaram a CTCA – A Cia. Tônia-Celi-Autran, que seria decisiva para o desenvolvimento do teatro brasileiro dos anos 1950 e 60.

 

As fotos da jovem Tônia sugerem uma beleza nórdica – uma Ingrid Bergman brasileira. Nascida na Europa, com certeza teria sido chamada a fazer carreira em Hollywood. No cinema, e às vezes de forma espaçada, participou de filmes como Apassionata, É Proibido Beijar, Mãos Sangrentas, Esses Rio Que Eu Amo, Gordos e Magros. Um grande papel foi em Sonhos de Menina Moça, de Teresa Trautman, de 1987, como a matriarca que consegue reunir a família pela última vez, na casa que será demolida em breve. Perpassa o almoço a lembrança do filho preferido, morto pela ditadura. No teatro, com sua beleza e tipo aristocrático, Tônia participou de montagens que fizeram história, com diretores como Ziembinski, Celi, Gianni Ratto e Maurice Vaneau.

Foi assim que fez Uma Mulher do Outro Mundo, de Noel Coward, Cândida, de Bernard Shaw, Otelo, de Shaskespeare, A Viúva Astuciosa, de Carlo Goldoni, Entre Quatro Paredes, de Jean-Paul Sarte, Calúnia, de Lilian Hellman, Seis Personagens à Procura de Um Autor, de Luigi Pirandello, Tiro e Queda, de Marcel Achard, A Dama do Maxims, de Jacques Feydeau, etc. Em 1968, algo se passou e Tônia, com direção de Fauzi Arap, teve um choque de realidade como a prostituta Neusa Suely de Navalha na Carne, o texto emblemático de Plínio Marcos. A partir daí vieram seus talvez maiores papéis – Nora, em Casa de Bonecas, de Ibsen; Alexandra del Lago, em Doce Pássaro da Juventude, de Tennessee Williams; Martha, em Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de Edward Albee; A Amante Inglesa, de Marguerite Duras; Clara, em A Visita da Velha Senhora, de Friedrich Durrenmatt.

Em 2005, reencontrou Fauzi Arap para Chega de História. A peça, também escrita por ele, é sobre uma professora aposentada, que vive com o salário mínimo do INSS, e é convidada para uma última palestra num centro cultural. Na TV, participou regularmente do Grande Teatro Tupi, entre 1952 e 60. Na Globo, brilhou em Uma Rosa com Amor, Cara a Cara, Água Viva, Sassaricando, Cupido Eletrônico, Sangue do Meu Sangue Senhora do Destino. Como ela mesma, participou de um capítulo de Um Só Coração, de 2004. Em momentos pontuais, tentou algo diferente, mas virou ícone por personagens classudas, que celebravam sua beleza e elegância.

Seu filho Cecil Thiré confirmou ao jornal Extra que a mãe sofria de uma doença chamada de hidrocefalia oculta. Acrescentou que, com o agravamento de sua saúde, não se comunicava mais nem conseguia andar. Viveu reclusa desde 2013. Em 26 de junho de 2015, um boato sobre sua morte circulou na internet, a partir de um perfil publicado pelo Globo online.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.