Ladd Company, The See
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Análise: Sam Shepard era mestre da escrita e ator de grandes papéis

Peças e roteiros esculpiram o mito, mas não se pode esquecer sua presença como Chuck Yeager em ‘Os Eleitos’

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

31 de julho de 2017 | 18h43

Seu último filme estreou num festival dos EUA, em junho – Never Here, de Camille Thoman. Foi gravado (em HD) no ano passado. Desde essa época, o estado de Sam Shepard agravou-se muito. Sofria de esclerose lateral amiotrófica, uma doença neurodegenerativa. Na quinta, 27, Shepard morreu em casa, no Kentucky. O anúncio foi feito na segunda, 31, por um porta-voz. Tinha 73 anos.

Imediatamente, Beau Willimont, que foi seu produtor, postou nas redes sociais – “Sam foi um dos maiores. Seus olhos testemunharam muita coisa, e ele escreveu sobre o que viu sem medo e com honestidade integral. Adeus, maestro.”

Filho de um casal de professores, Samuel Shepard Rogers III – seu nome completo – herdou dos pais o gosto pela escrita. Foi autor de 44 peças de teatro, mais livros de pequenas histórias, ensaios, memórias e roteiros. Em 1979, venceu o Pulitzer, o maior prêmio literário dos EUA, pela peça Buried Child. É a parte intermediária de uma trilogia (sobre a família) que inclui Curse of the Starving Class e True West. Os críticos acrescentam outros dois textos ao que consideram um impecável ciclo de cinco – Fool for Love/Louco de Amor e A Lie of the Mind.

Louco de Amor é a mais popular das peças de Shepard – virou filme de Robert Altman (com Kim Basinger e Harry Dean Stanton) e, no Brasil, foi montada por Hector Babenco (com Xuxa Lopes e Edson Celulari). Paralelamente à atividade como dramaturgo, Shepard desenvolveu uma carreira como ator. Coestrelou, com Richard Gere e Brooke Adams, Cinzas no Paraíso, de 1978, no começo da carreira de Terrence Malick – quando ele era bom de fato. Entre outros roteiros, escreveu dois para filmes de Wim Wenders. Paris, Texas recebeu a Palma de Ouro em 1984; 20 anos mais tarde surgiu Estrela Solitária.

Em 1982, Sam Shepard estava no elenco de Frances, de Graeme Clifford, com Jessica Lange. Iniciaram ali uma ligação que durou até 2009, com direito a dois filhos. Foram muitos papéis, e muitos bons filmes. Mas o melhor é Os Eleitos, de Philip Kaufman. A epopeia espacial dos EUA, a histórica primeira geração de astronautas, recrutados entre pilotos de ponta. Sam Shepard faz o lendário Chuck Yeager, preterido por sua rebeldia. Numa cena, ele sobe mais alto que qualquer homem. Rompe as barreiras do som e do espaço. Fica suspenso no ar e Kaufman filma, em paralelo, o strip tease de uma artista também lendária, Miss Sally Rand, envolta em plumas. Inesquecível.

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