Análise: O melhor a fazer é não convencer Ivana de que ela é menina

Análise: O melhor a fazer é não convencer Ivana de que ela é menina

Hoje não se considera patológica a identificação com um gênero diferente do sexo

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2017 | 06h02

Eis que a conversa sobre as questões de gênero finalmente chega à sala da família, trazida às luzes da ribalta pelas mãos da autora ponta de lança Gloria Perez.

Em cena memorável tanto pelo pioneirismo como pela precisão das atuações, a personagem Ivana revelou que desde sempre se sentiu como um menino. Nascer com o corpo de uma mulher “foi um engano”. A incredulidade dos familiares refletia menos indignação do que ignorância. Chegaram a imaginar que se tratasse de um surto, que ela estivesse delirando, e sugeriram que se chamasse um psiquiatra. Ok, aqui estou.

Mas, ao contrário do que imaginavam, o melhor a fazer não é convencer Ivana de que ela é menina. O importante é explicar as diferenças entre sexo, identidade de gênero e orientação sexual. As definições podem variar um pouco, mas de forma geral sexo se refere à biologia - dos cromossomos XX para fêmeas e XY para machos até às características sexuais secundárias. Gênero refere-se ao papel sociocultural habitualmente atribuído a homens ou mulheres, bem como às características esperadas desses papéis. É aí que entra a identidade de gênero - o mais habitual é as pessoas nascidas biologicamente homens se identificarem com o gênero masculino, o mesmo se dando com as mulheres.

Mas há pessoas, chamadas transgêneros, que não se identificam com seu sexo de nascimento. Reserva-se o termo transexuais para quem tenha desejo de adotar o gênero oposto, transformando corpo e genitais. E há ainda a orientação sexual, que diz por quem a pessoa sente-se sexualmente atraída. Também é mais comum que a atração se dê pelo sexo oposto ao sexo de nascimento e gênero - mas qualquer combinação é possível.

Hoje não se considera patológica a identificação com um gênero diferente do sexo. É o sofrimento que o desencontro pode gerar - como a personagem Ivana ilustra tão bem - que deve ser tratado. E se tal sofrimento só puder ser sanado com a redesignação de gênero, ou seja, ajudando a pessoa a transformar seu corpo para ser o mais próximo possível de sua identidade, é isso que deve ser feito.

* PSIQUIATRA DO INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS

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Glória PerezTransgênero

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