REUTERS/Shannon Stapleton
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Análise: Mundo exclusivo da moda de luxo abraça causas inclusivas

Claro que a busca por divulgar causas nobres e inclusivas, com ajuda financeira de grifes de luxo ricas e poderosas, é louvável

O Estado de S.Paulo

07 Setembro 2018 | 06h00

A moda é um terreno contraditório cheio de boas intenções. Mas, como se sabe, de boas ideias o inferno fashion está cheio. A última palavra das passarelas e dos discursos de marketing foi dada por marcas como a Balenciaga, que abraçou uma causa realmente nobre ao ajudar a organização humanitária em combate à fome, a World Food Programme (WFP). 

De cada boné (US$ 390), moletom (a partir de US$ 790) e pochete (US$ 850) vendidos, uma porcentagem de 10% será revertida para a organização. Como o estilista a frente da marca agora é o georgiano Demna Gvasalia, um dos reis da moda de rua, aclamado por sua pegada jovem e transgressora, naturalmente, a ação foi aplaudida e copiada. Pegou muito bem.

Claro que a busca por divulgar causas nobres e inclusivas, com ajuda financeira de grifes de luxo ricas e poderosas, é louvável. De fato, nenhuma marca hoje em dia, tempos de engajamento e ativismo digital, pode soar alienada sobre as questões em pauta no momento. 

Não à toa, o radar dos criadores foi expandido, adotando discurso político (vide a crítica subliminar a Trump nos desfiles da Calvin Klein, assinados por Raf Simons), apoio ao movimento negro, defesa da inclusão de modelos de diversos tipos de beleza e aceno a práticas de produção mais sustentáveis. Na lógica do mercado atual, ou a marca abraça esses valores alinhados aos da geração millennium ou parecerá velha e ultrapassada.

A ironia mora apenas no fato de que o propósito de um produto de luxo continua sendo o mesmo de sempre: o de oferecer status, de diferenciar quem pode pagar para ostentar e deixar claro seu poder aquisitivo ou sua posição social. Nesse quesito, elevar a faixa de preços das roupas oferecidas (como ocorreu nos últimos anos com a Gucci e a Valentino) continua sendo sinal de sucesso para o estilista, não importando se o que ele está oferecendo é uma bolsa feita à mão num processo artesanal tradicional mantido há décadas ou se é uma camiseta de algodão com um lema feminista vendedor estampado. É dessa contradição ideológica que vive a moda global hoje e é ela que veremos florescer nas passarelas das semanas de moda, que começa com a New York Fashion Week.

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