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Análise: Goebbels assinaria embaixo após discurso de Alvim

Secretário de Cultura de Bolsonaro foi demitido após parafrasear trecho do ministro da Propaganda de Hitler

Marcos Guterman*, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2020 | 16h47

Desta vez capricharam. Ao anunciar na quinta-feira um prêmio de fomento para projetos culturais, o então secretário especial de Cultura do governo federal, Roberto Alvim, usou em seu discurso parte de um pronunciamento do ministro da Propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels. Ao fundo, enquanto o secretário falava de forma solene, ouvia-se um trecho da ópera Lohengrin, de Wagner, compositor preferido do ditador nazista Adolf Hitler. Não foi difícil para que alguém rapidamente notasse as referências ao regime hitlerista.

Não será surpresa se a atenção da opinião pública se concentrar no tal parágrafo inspirado em Goebbels como prova definitiva, para alguns, do “nazismo” latente do governo. O problema, contudo, não é o trecho em questão, mas todo o discurso. Do início ao fim, quase todas as ideias ali contidas são as mesmas que integraram a doutrina da maioria dos regimes ditatoriais de perfil totalitário ao longo da história contemporânea, inclusive o nazista. 

A ideia da elaboração de uma “arte nacional, capaz de encarnar simbolicamente os anseios da maioria da população”, está na essência do controle político e social acalentado por qualquer ditadura totalitária. Nesse modelo, será “nacional” somente aquilo que obedecer aos critérios estabelecidos pelo Estado; logo, tudo o que não se enquadrar nisso será “arte degenerada”, como as autoridades nazistas qualificaram as obras produzidas por artistas que o Estado havia classificado como inimigos. Levado ao extremo, tal programa violenta de forma brutal a diversidade cultural, sem a qual não se pode falar em democracia.

Alvim declarou que, “quando a cultura adoece, o povo adoece junto”, frase que bem poderia ter sido dita por qualquer ideólogo nazista. No Terceiro Reich, o inimigo era tratado como uma doença que ameaçava “contaminar” o “corpo nacional” por meios insidiosos - sendo a cultura o principal veículo dessa “infecção”.

Para enfrentar esse risco, Alvim acentuou a “urgência” de medidas para transformar a “arte brasileira” numa arte “heróica”, “nacional” e, claro, “imperativa”. Segundo o agora ex-secretário, ou a cultura se submete a esse plano de “salvação”, “ou então não será nada” - palavras textualmente retiradas do discurso original de Goebbels e que se coadunam perfeitamente com o caráter absoluto do nazismo, que considerava tudo como questão de vida ou morte.

A exoneração do secretário Alvim diante da repercussão negativa de sua fala não muda o fato de que ele nada mais fez do que acrescentar teatralidade a um discurso que é voz corrente entre várias figuras de proa no governo, a começar pelo próprio presidente Bolsonaro. 

Ao dizer que “as virtudes da fé, da lealdade, do auto-sacrifício e da luta contra o mal serão alçadas ao território sagrado das obras de arte” a partir das iniciativas do governo, o agora ex-secretário de Cultura apenas reiterou o que Bolsonaro já havia dito em outras oportunidades: que, doravante, só terá financiamento público o projeto artístico que se prestar a difundir a ideia de nação elaborada pelo bolsonarismo. 

Em outras palavras, o bolsonarismo, assim como qualquer outro movimento autoritário, quer transformar a imaginação estética em mecanismo de construção de um senso de unidade nacional e de submissão coletiva ao Estado - tudo isso, segundo Alvim, com vista ao “renascimento da cultura e da arte no Brasil” e à “construção de uma nova e pujante civilização brasileira”. Esses trechos entre aspas são da lavra do ex-secretário da Cultura, mas Goebbels certamente assinaria embaixo.

*Marcos Guterman é jornalista e historiador, autor do livro 'Nazistas entre Nós' (Editora Contexto)

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