Análise: Autismo há 25 anos

As famílias que encontrei só conheciam medicamentos psicotrópicos e a sentença: 'não tem cura'; de uma forma geral, a morte social dessas famílias era o destino de muitos

Berenice Piana*, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2020 | 05h00

Hoje falamos sobre uma síndrome que, segundo a Organização Mundial de Saúde, é superior a câncer, aids e diabete somados. Autismo. Autismo ainda é um desafio para a ciência, e a busca por causas e tratamento está no epicentro do mundo científico.

Os métodos de terapia comportamental há 25 anos eram quase desconhecidos, e as famílias que encontrei nessa época só conheciam medicamentos psicotrópicos e a sentença: "não tem cura".

As escolas recusavam matrícula para os casos severos e moderados, e não havia uma lei que garantisse seus direitos básicos de saúde e educação. De uma forma geral, a morte social dessas famílias era o destino de muitos. A impossibilidade de conviver socialmente, fosse por medo do preconceito ou de expor o filho, era algo não comentado e nem visto. A sociedade não conhecia os autistas.

Em 2009, novos ares começaram a soprar com a primeira audiência pública em Brasília, onde o assunto tomou as redes sociais, e os jornais e TV comentaram. O movimento criado em torno de um projeto de lei impulsionou a causa pelo Brasil afora e trouxe para as famílias mais ânimo e força para lutarem. Os casos de genialidade - autistas excepcionais com habilidades incríveis em qualquer área - eram as notícias que apareciam com mais frequência. Os casos severos, em cárcere privado, quase nunca eram mostrados a não ser nas audiências públicas onde mães pediam socorro.

Professores e profissionais da saúde perceberam a demanda largamente aumentada, e cursos de capacitação surgiram por vários Estados. Métodos novos de tratamento e terapias comportamentais trouxeram alívio aos que podem pagar. Na rede pública, pouca coisa mudou em casos isolados onde, com a força das famílias, criou-se locais específicos de tratamento e busca por algo mais.

As escolas já recebem o aluno autista pela força da Lei 12.764/12, que garante os direitos da pessoa com TEA, mas nem sempre com a atenção que eles precisam. Os professores engatinham nesse universo procurando a forma de alfabetizá-los. É preciso aprender um outro jeito de ensinar. É preciso dar mais socorro aos autistas do Brasil.

Berenice Piana é ativista na causa do autismo, co-autora da lei federal 12.764/12, que garante os direitos dos autistas, e mãe de um jovem autista

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