Análise: A linha tênue que separa impulso criativo da doença mental

Como Yayoi Kusama, Van Gogh, Munch e Georgia O’Keefe foram estudados por especialistas

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

21 de maio de 2014 | 00h18

Yayoi Kusama foi educada numa cultura de auto-obliteração. É o que sempre diz quando lhe perguntam sobre as raízes de sua "obsessão infinita" pelo trabalho. Ela pinta para se perder nele, para se salvar, combatendo o pânico, a ansiedade e a dor de ser portadora de uma doença mental. Não será a primeira nem a última criatura a enfrentar esse medo com arte. Antes dela, pintores como Van Gogh, Munch e sua amiga Georgia O’Keefe foram estudados por especialistas, que concluíram ser tênue a linha que separa impulso criativo da doença mental. Não que insanidade seja sinônimo de genialidade ou que todo gênio seja insano. Afinal, essa associação de loucura platônica com criação artística – Platão ligava a insanidade a uma manifestação divina – acabou incorporada ao romantismo no século 19, que consagrou o estereótipo do gênio excêntrico.

Não é o caso de Yayoi Kusama, que, antes de sua internação voluntária num hospital psiquiátrico no Japão, passou os anos 1960 e parte dos 1970 nos EUA ocupada em chocar burgueses escandalizáveis com sua obsessão fálica – a mesma de outra grande artista, a escultora Louise Bourgeois (1911-2010). A exemplo da surrealista de origem francesa, Kusama tem um problema com a sociedade patriarcal. Sua mãe a mandava espionar o pai infiel em pleno ato amoroso com suas amantes.

O voyeurismo de Kusama cresceu, a ponto de organizar performances e happenings em que a nudez era protagonista e criar instalações com formas fálicas – uma maneira, admite a artista, de superar o pavor de ser penetrada. A ideia de fazer uso de um diagnóstico psiquiátrico para explicar arte, como defendem os especialistas, é anátema. De fato, o processo repetitivo de cobrir telas com bolinhas ou móveis com protuberâncias fálicas resiste a interpretações simplistas. No entanto, essa prática recorrente foi assumida pela própria artista como uma forma de obliteração, a partir do próprio título que escolheu para essas séries (Obsessão Sexual).

Nos happenings, ela preferia ser a regente da orgia, pintando bolinhas nos corpos dos participantes, num esquemático jogo erótico em que a artista se escondia atrás do trabalho (e das bolinhas). Nos EUA, Kusama, criada numa sociedade conservadora como a japonesa, encontrou a chance de se livrar do trauma numa época – a de musicais libertários como Hair – que promoveu o amor livre e a mimese da loucura como componente da criação artística. Antes disso, claro, Munch defendera o primado da insanidade ao proclamar que a sua arte seria "destruída" caso fosse submetido a tratamento psiquiátrico. A doença fazia parte de sua pintura, era seu fio condutor.

Outros artistas, como Dubuffet, que cunhou a expressão ‘arte bruta’ em 1945, viram na arte uma fonte libertadora de artistas portadores de doenças mentais, uma forma de escapar à cultura em que foram criados – em especial psicóticos como o suíço Adolf Wölfli, abusado sexualmente na infância e vítima de alucinações. No Brasil, o artista mais popular associado à insanidade foi Arthur Bispo do Rosário, diagnosticado como esquizofrênico em 1938.

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