Ana Paula Arósio, a gata de botas

Fama, viagens internacionais, capas de revistas, contratos em dólares. Parecem incontáveis as razões que levam uma garota a sonhar com o glamouroso mundo das modelos. Mas no caso de Ana Paula Arósio tudo se resumiu a uma simples mobilete.Aos 12 anos, já dona de uma beleza perturbadora que ao tempo só coube lapidar, a menina convenceu a mãe a autorizar seu primeiro ensaio fotográfico - cujo cachê seria usado na compra da tal moto, sonho de consumo de todos os seus amigos adolescentes do Jardim Ernestina, em Santo Amaro, onde vivia. Nos 15 anos que se seguiram àquela primeira foto, Ana Paula alcançou tudo. A fama, as viagens, os contratos em dólares, as capas de revistas... E deu ainda um passo maior - tornou-se uma atriz respeitada. Mas nunca conseguiu comprar a mobilete. "Após meu primeiro trabalho, as coisas aconteceram de forma tão rápida que não tive mais tempo de brincar", diz a atriz. Aos 13 anos fez a primeira de suas oito viagens a trabalho para o Japão, aprendeu inglês na marra e em pouquíssimo tempo havia se tornado o rostinho mais disputado pelas publicações teen do País.Hoje seu ritmo não é menos intenso. É a protagonista da novela das oito, Esperança, no palco vive Nora, personagem de Ibsen no clássico Casa de Boneca, em cartaz na cidade, é a garota-propaganda da Embratel, empresta seu rosto para uma das campanhas mundiais da L´Oreal, é sócia de uma produtora que está em busca de um texto para a estréia teatral de Giovanna Antonelli e ainda encontra tempo para se dedicar a Dante, Macarrão, Cigano, Moça, Pirra, Xênia, Centelha, Jogo e Mágico, apenas alguns dos cavalos que cria em um sítio na cidade paulista de Itu. Ao lado dos cachorros e de pelo menos 12 ovelhas que cresceram tomando mamadeira em seu colo."Sinto que ainda tenho muito a aprender, não estou nem no aquecimento do que planejo fazer", revela. "Mas ao mesmo tempo já pensei em largar tudo para ir domar cavalo, ser só um peão." Na quinta-feira, véspera da reestréia paulista de Casa de Boneca, agora no Teatro Hilton, Ana Paula Arósio recebeu a reportagem para uma entrevista interrompida várias vezes pelos pedidos de autógrafo de um público que, ao que parece, prefere ver seu rosto no horário nobre a imaginá-la no campo, equilibrando-se sobre uma sela de algum puro-sangue.Você já se sentiu obrigada a trabalhar mais apenas para provar, aos outros ou a si mesma, que não era só uma mulher bonita?Ana Paula Arósio - Acho que as pessoas se preocupam mais com isso do que eu mesma. Faço pouco caso da beleza, quero que ela seja uma coisa a menos para eu me preocupar. Procuro deixar a beleza em segundo plano no meu trabalho e não gosto quando os diretores querem refazer alguma cena só porque não fiquei bela ou porque franzi a testa.E em relação aos homens, eles se animam ou se intimidam diante de uma mulher bonita? Olha, isso atrai alguns homens e espanta outros. Não sei exatamente em que proporção eles são atraídos ou repelidos. Mas o contráro também ocorre. Fico intimidada diante de um homem bonito. Eu já sou, por natureza, muito desconfiada. Pelo fato de estar em exposição, tenho de pensar duas vezes antes de fazer qualquer coisa. Às vezes, penso: será que vale a pena me envolver? Está tudo tão bom, tão calmo na minha vida."Esperança" não foi, logo de cara, um sucesso de público. Como os atores lidam com isso? Existe alguma pressão sobre o elenco? Eu gostaria que todo mundo visse a novela porque nós temos muito prazer em fazer. Mas não é possível colocar a pressão do Ibope em cima do ator, porque somos apenas os mensageiros. O ator só faz o que pedem para que ele faça. O máximo que posso fazer é desempenhar o melhor possível o meu trabalho. E não costumo me informar sobre índices de audiência.E sobre as críticas de que "Esperança" seria apenas uma "Terra Nostra" clonada? Existe uma semelhança porque as duas novelas tratam da imigração no Brasil e foram escritas pelo mesmo autor. E as novelas sempre vão ter o herói, a heroína, o vilão. Esta é a fórmula delas. Mas as histórias já se distanciaram.O sotaque de Camille, sua personagem, foi muito criticado, até que começou a desaparecer nos últimos capítulos. O que houve? Nem sempre é possível acertar. Aquele sotaque foi criado com a orientação de uma professora de íidiche, para reforçar o caráter judeu da personagem. Eu fiz o sotaque e mostrei no início da novela. Depois decidiram mudar, uma espécie de correção de rumo. Em uma novela que dura quase um ano é possível fazer este tipo de correção. Como é seu trabalho como produtora de teatro? Sou sócia de uma produtora ao lado dos empresários Nissia Garcia e Cláudio Rangel. Montamos Casa de Boneca e outras duas peças em que atuei, Harmonia em Negro e O Diário Secreto de Adão e Eva. Agora estamos em busca de um texto para produzir a primeira peça de Giovanna Antonelli. Já lemos várias peças, entre elas Pigmaleão, de Bernard Shaw. Mas ainda não decidimos qual texto será. Sendo produtora, posso escolher que personagem interpretar. Isso, no Brasil, é uma dádiva.Como é a Ana Paula criadora de cavalos? A criação de animais é meu grande prazer. Na infância, meu desejo era ser veterinária. Agora, com o sítio, posso realizar este sonho. Ainda não consegui, sozinha, domar um cavalo, mas já amacio cavalos novos. Olho para o animal e sei dizer se ele está bem ou com algum problema. Eu monto muito bem, embora nunca tenha feito aulas de hipismo clássico. Aprendi a montar em quarto-de-milha. Também já levei tombos horríveis. É verdade que você também sabe castrar animais? Castro bois e cavalos, é uma coisa que no sítio só eu faço. Nem o veterinário está autorizado a fazer quando não estou lá. Castrar bois é mais difícil, mais demorado. Também já entubei cavalos que estavam com cólicas. Talvez eu goste tanto disso porque não existe nenhum glamour nesta função. A única coisa chique que havia no meu sítio era um chapéu, que foi roubado. No sítio eu viro um bicho, coloco uma camiseta e passo o dia rodeada pelos animais, os cachorros me seguem para todo lado. Você lida bem com as críticas? É humanamente impossível ignorar uma crítica. Deliberadamente eu posso não ler, mas se leio ela me afeta. No dia em que alguma crítica ruim é publicada, é difícil até sair de casa. Mas o pior das críticas ruins não é o texto, e sim a piedade dos colegas. É horrível quando alguém chega e bate no seu ombro dizendo, "não fica assim, não estava tão ruim". Isto sim é péssimo. Qual é seu grande sonho hoje? Ter uma égua campeã. Os holofotes estariam em cima dela, não em cima de mim.

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