Adriana Vichi/Divulgação
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Ana Miranda faz viagem poética ao passado em novo romance

Contextualização histórica é ponto forte de 'Semíramis', em que autora revisita José de Alencar

André De Leones, Especial para O Estado de S. Paulo

14 de março de 2014 | 20h53

A literatura permite não apenas que nos fixemos nos livros, mas também nos livros sobre livros. De certo modo, é o que oferece a cearense Ana Miranda em obras como Boca do Inferno (sobre Gregório de Matos), A Última Quimera (sobre Augusto dos Anjos) e, agora, Semíramis, no qual a sombra de José de Alencar (1829-1877) se faz presente.

No novo romance, como que respeitando determinada “matemática de presenças e ausências”, a abordagem não é direta. A narradora, Iriana, é irmã da personagem-título e raramente deixa a vila do Crato, no interior do Ceará. Semíramis é quem se muda para o Rio após se casar com um político. Exceto por duas passagens, a presença de Alencar será oblíqua e, em alguns momentos, ocorrerá por meio de uma identificação de Iriana com os seus escritos. A intimidade, aqui, é da leitora com a literatura.

Quando o livro começa, as “lembranças ainda galopavam pelas ruas, dando tiros”. O avô da narradora é um político ligado a ninguém menos que Bárbara de Alencar, mãe de José Martiniano (pai do escritor) e Tristão Gonçalves, figuras importantes nas insurreições republicanas de 1817, a Revolução dos Padres, e de 1824, a Confederação do Equador. Dona Bárbara é descrita como alguém que “flanava num mundo de grandes tramas, fazia parte de tragédias, disputas, da craveira de forças”, que perdera “as fazendas com as duas guerras republicanas”, além do irmão, dois filhos e vários parentes naquele “território de guerras, desde as armadas contra vermelhados, em sua infância, incêndios de tabas guerreiras, assaltos e massacres, centenas de cabeças rolando pelo chão, foi o que ela herdou, e herdamos”. Como se vê por esse pequeno trecho, a contextualização histórica não é didática, mas intestina. É um dos pontos fortes do livro.

Largada na distância, mas compaginada ao leitor, Iriana acompanha as vidas da irmã e de Alencar por meio da palavra escrita, seja nas cartas (em se tratando de Semíramis), seja nos livros. Assim, a qualidade fantasmagórica desses personagens não deve ser confundida com distanciamento, especialmente no que diz respeito ao autor de O Guarani. A identificação da narradora com a literatura de Alencar é profunda, pois ela entende que os folhetins, “assim como a própria vida, eram traçados por menções secretas às suas correntes”, e que o autor “tecia uma novela com os fios de uma ventura real”. 

Há, portanto, uma bela contaminação ficcional que se dá em diversos níveis e em várias direções. Como se viu, Iriana identifica eventos de sua própria história nos escritos de Alencar. Estes “invadem” o corpo do romance com frequência. E, no fim das contas, mesmo que aquela identificação não seja factual ou efetiva, não é o que todos nós, leitores, fazemos quando diante de uma boa obra literária? Semíramis aponta justamente para essa relação que se estabelece entre leitor e autor ou, mais propriamente, entre leitor e obra. Assim, a literatura de Ana Miranda conversa com a literatura de José de Alencar e nos aproxima dela por um idioma comum: a ficção. O escritor é revisitado em seu próprio espaço. 

ANDRÉ DE LEONES É AUTOR DO ROMANCE 'TERRA DE CASAS VAZIAS' (ROCCO), ENTRE OUTROS

Serviço:

SEMÍRAMIS

Autora: Ana Miranda

Editora: Companhia das Letras (272 págs., R$ 39,50)

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