Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Ana Maria Machado fala sobre ABL e seu romance histórico

Obra fala da escravidão de negors e índios no século 16

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

13 de dezembro de 2013 | 21h03

Nos últimos quatro anos, a escritora Ana Maria Machado dividiu a literatura com a responsabilidade de assuntos importantes – em 2010 e 2011, ela foi a secretária-geral da Academia Brasileira de Letras, segundo cargo na hierarquia da instituição. No biênio seguinte, Ana Maria trabalhou muito como presidente da ABL, cargo que entregou, na semana passada, para Geraldo Holanda Cavalcanti. Nesse período, ela ocupou os raros momentos vagos para escrever Enquanto o Dia Não Chega, aventura infantojuvenil lançada agora pela Alfaguara.

Mais que ajudar a maturar a história, o tempo permitiu que Ana Maria cuidasse de detalhes imprescindíveis à trama, seja na pesquisa histórica, seja a exata escolha das palavras. O livro se passa no final do século 16 e tem como pano de fundo a formação da cultura brasileira. Atrás do irmão, Bento, deserdado para o Brasil depois de enfrentar problemas com a Justiça, Manu se obriga a deixar Portugal e vir para uma terra inóspita. Seus gestos e vestimentas são de menino, mas... Aqui, eles conhecem Caiubi e Didi, dois jovens também obrigados a viver em novo lar, mas por um motivo mais violento: são escravos.

Escritora premiada, com mais de 20 milhões de livros vendidos na carreira, Ana Maria Machado pesquisou a organização do império colonial português, descobriu detalhes das dificuldades apresentadas nas travessias dos oceanos, detalhou a escravização dos povos africanos, a catequese dos índios e os jesuítas, o surgimento dos quilombos, os costumes, os saberes e as tradições dos povos.

Mais que isso, aproveitou a elasticidade da língua portuguesa para trabalhar a ambiguidade sexual de um de seus personagens. Sobre o assunto, Ana Maria falou com o Estado por telefone, fazendo ainda um balanço da presidência na ABL.

Por que você escolheu o final do século 16, período que não é comum na sua obra?

Foi a união de muitas coisas. Quando escrevi O Mar Nunca Transborda, em 1995, fiz pesquisa sobre diferentes séculos, então guardei na lembrança fatos daquela época. Em uma visita a Lisboa, descobri uma referência a uma grande procissão realizada depois do término de um surto de peste no século 16. Percebi que essa fase histórica nos era próxima, convivendo com o nascimento do Brasil. Também havia a referência aos degredados ao nosso País, especialmente grumetes, adolescentes que resolveram ficar aqui. Foi meu ponto de partida: por que um garoto resolveu permanecer em uma terra que, segundo Sérgio Buarque, era vista como visão do paraíso? Seria para evitar novamente o inferno que era viajar em caravelas? Essa questão me animou a enfrentar o desafio da ambiguidade de Manu que, até certo ponto, era um desafio linguístico: eu não podia dar dicas que caracterizassem o gênero. Não antes de o leitor criar uma empatia com o personagem, independente de ter uma ideia preconcebida do diferente comportamento de um menino e uma menina.

Como foi isso?

Depois de escrever, era necessária uma revisão atentíssima para descobrir algum vacilo – isso porque a linguagem é inconsciente: utilizamos naturalmente “apressada” ou “apressado” para definir o sexo de quem fala. Nesse caso, eu preferia “veloz”. Tive que procurar o comum de dois.

Você se preocupou em como caracterizar uma menina que se passa por menino no século 16?

O que realmente me interessou era que ela tivesse uma verdade, que era o amor pelo irmão. Por causa disso, ela fingia qualquer coisa e ficava quieta. Ela improvisava à medida que as situações aconteciam, era questão de sobrevivência.

O texto não utiliza linguagem da época para não causar um estranhamento no jovem leitor de hoje, ainda que surjam vocábulos datados como “vosmecê”?

Não. O que pretendi foi mostrar como nossa língua é mais aberta do que imaginamos. Temos uma capacidade de sermos poliglotas em português muito maior do que pensamos. É o que permite uma pessoa de classe média se encantar com uma história narrada com a gíria do morro ou da periferia e o inverso também acontecer. O uso de ‘vosmecê’ e outros vocábulos revela uma preocupação em ter um sotaque de época, não a recriação de uma linguagem. O livro parte da linguagem, daí a coerência interna da escrita.

E a fonte de pesquisa?

Quase inexistente, a ponto de eu deslocar a história mais para o fim do século 16, pois há mais documentação do Brasil holandês, especialmente sobre o cotidiano: como eram os móveis, as refeições, os meios de locomoção. Antes disso, as referências são tão escassas que não é possível afirmar que havia cavalo ou cachorro no Brasil da época.

Na metade da narrativa, acontece uma surpresa, com a entrada de novos personagens, os da família africana. Foi proposital?

Sim. Queria que fosse um momento violentamente abrupto. Como a vida desses africanos que, de repente, eram caçados e levados de suas terras. Eu queria que a estrutura do livro tivesse esse momento de violência. O livro começa de forma idílica até que o leitor toma um susto: onde estão Manu e Bento? O que me surpreendeu foi descobrir, na pesquisa, que aqueles caçadores de escravos eram normalmente africanos. Ou seja, o mercado escravocrata era também alimentado por outros africanos.

Você escreveu o romance nos tempos livres enquanto presidia a ABL. Mudou sua visão inicial do romance, nesses quatro anos?

Nunca tive visão de como seria o ponto final. Inicialmente, era uma história da busca de liberdade, algo que movia todos os personagens. O arquivo em meu computador, aliás, onde escrevia a história, chamava-se ‘liberdade’. Mas logo percebi que não podia conduzir a trama para um final cor de rosa. O foco mudou, então, para a esperança, porque sempre temos esperança, mesmo sem alcançar o que desejamos. Assim, o livro recebeu um título que define essa espera: Enquanto o Dia Não Chega.

Em dois anos presidindo a ABL, realizou o que esperava?

Eu não tinha um meta específica. Tinha direções e consegui ser fiel a elas. Queria arrumar administrativamente a academia e acho que consegui. Externamente, pretendia realizar dois movimentos: um, social, de viabilizar projetos em conjunto – sobretudo com as Unidades de Polícia Pacificadora – para a multiplicação de livros em comunidades carentes. Também queria consolidar um caminho para a divulgação da literatura brasileira no exterior.

Como fez isso?

Desenvolvi, com diferentes universidades estrangeiras, programas com seminários envolvendo professores deles e os nossos acadêmicos, sobre obras de grandes autores como Machado de Assis, Guimarães Rosa, Lygia Fagundes Telles, João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado, a fim de suscitar a escrita de artigos que compusessem uma fortuna crítica sobre nossa literatura. O resultado foi a publicação de dois volumes, sobre Machado e João Cabral, com artigos de críticos estrangeiros. Disso, eu me orgulho muito.

No final da sua gestão, o mundo literário e musical foi marcado pela acalorada discussão sobre a censura nas biografias. A Academia Brasileira de Letras sempre se posicionou, não?

Sim, a instituição gradativamente apoiou o ponto de vista defendido pelos biógrafos. Primeiro, individualmente: quando surgiu o primeiro manifesto de intelectuais, com menos de 50 assinaturas, quase a metade era de acadêmicos. Depois, enviamos notas à imprensa e, em seguida, eu me posicionei contra qualquer forma de censura.

Você também esteve na abertura da Feira de Frankfurt, marcada pelo discurso de Luiz Ruffato, que escancarou mazelas nacionais.

Ele entregou o que queriam. Ninguém o convidaria se não soubesse o que ele costuma falar. Meu discurso foi de apresentação literária. Algo equilibrado. Na época em que escrevi, havia uma contestação dos estrangeiros sobre a quantidade de escritores brasileiros que foram a Frankfurt – diziam ser quase impossível termos 70 grandes nomes. Ou seja, a posição era ridicularizar a delegação brasileira. Assim, me competia ali defender a participação no seu conjunto, não importando os nomes. Daí eu ter dito que levamos uma delegação variada, incluindo potencialidades, o que é uma opção política de inclusão. A reação ao discurso do Ruffato foi muito extremada, a favor e contra. Quando ele terminou e se sentou ao meu lado, meu primeiro impulso foi abraçá-lo e beijá-lo, pois pensei que ele seria linchado. Afinal, somos tudo isso: esse passionalismo, a ponderação do meu discurso e o aproveitamento mais deslavado no discurso que se seguiu (do vice-presidente Michel Temer).

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.