Ana Botafogo dança no CCBB de SP

A doce Ana Botafogo reina como primeira bailarina do Teatro Municipal do Rio de Janeiro há 20 anos. A menina que em 1981 enfrentou uma banca em uma audição com a presença de Marcia Haydée, hoje brilha com sua experiência e técnica. Com uma agenda lotada, Ana fecha o ano com 26 apresentações de O Quebra-Nozes e fica em cartaz com a coreografia Três Momentos de Amor, no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, de 6 a 16 de dezembro. Em meio ao turbilhão de ensaios, a bailarina falou sobre sua carreira, experiências e seus projetos. "Falar sobre os meus 20 anos no Municipal do Rio é difícil", brinca. "Para começar, eu era 20 anos mais jovem, o que significa que havia executado poucos primeiros papéis - o papel principal dentro da coreografia - e a atuação no Municipal ajudou-me a aprender como interpretar esses personagens e a consolidar a técnica. Posso dizer que nesses anos conquistei maturidade artística, adquiri experiência e, cada vez que danço um balé, tudo fica mais fácil, natural." Como toda principiante, a insegurança marcou o início da trajetória artística. "Passei dois anos me preparando no Municipal para poder aceitar um convite para ir ao exterior, o que foi muito importante para minha formação profissional", comenta. "Uma coisa é fundamental para o desenvolvimento de um artista: o ensaio. Apesar dos anos e da prática, vejo o quanto é necessário ter um ensaiador, alguém que oriente suas posições - o artista não tem como visualizar o melhor ângulo." E orienta: "Costumo aconselhar aos que estão dando os primeiros passos, que façam muitas aulas e se apliquem sempre." A dedicação foi uma marca na vida de Ana Botafogo. Aos 9 anos, começou a dançar balé incentivada pela mãe. O interesse aumentou, foi para o conservatório Ballet Leda Iuqui e aos 11 anos já estava no Corpo de Baile. Nessa época o Municipal estava fechado para reformas. "Sempre gostei de dançar e dançava muito. Não tinha um plano de carreira formado, sempre sonhei com o Municipal, mas considerava uma realidade distante. Nunca pensei que pudesse passar nos testes, parecia muito difícil, quando fui chamada e com o título de primeira bailarina tive uma grande surpresa", lembra. Na dúvida, foi estudar Letras na Sorbonne. Mesmo na França o amor pelo balé prosseguiu - a garota ingressou no Ballet Roland Petit. "Tudo aconteceu de uma hora para outra. Decidi que aquela seria a minha vida. Em seguida, fui para o Ballet de Marselha, viajei muito, peguei a tarimba de uma companhia profissional", diz. "Nesses anos, fiz turnês nos Estados Unidos e em outros países, tive muitos partners famosos, o que possibilitou a troca de informações, adaptação a diversos estilos. Essas situações tornam os artistas mais ágeis." Em uma temporada de Dom Quixote, Ana chegou a trocar cinco vezes de parceiro. Rumos - A entrega total ao balé veio pela admiração de Ana por dois grandes nomes da dança: Margot Fonteyn e Marcia Haydée. "Tive a oportunidade de conhecer Margot quando eu ainda era amadora. Ela fez um espetáculo em Goiânia e pude conferir de perto toda a delicadeza de uma das maiores bailarinas do século. Procuro me espelhar nela", recorda. "No entanto, admito que minha maior inspiração foi Marcia. Ela possui um dom impressionante de interpretar que me fascina. Este ano realizei um grande sonho: dancei A Megera Domada, peça interpretada anteriormente por ela." O público paulistano também terá a chance de assistir a um momento especial da vida de Ana Botafogo. No CCBB, a bailarina exibirá a coreografia Três Momentos do Amor (criada especialmente para ela), ao lado da amiga Lilian Barreto e de seis músicos, que tomam o palco com um repertório que percorre do erudito ao popular. O trabalho é assinado por três coreógrafos: Eron Nobre, Renato Vieira e Luis Arrieta. "Utilizamos a técnica clássica, mas a concepção do espetáculo é contemporânea. O resultado é um trabalho intimista, com boa música e efeitos interessantes. Em Brasília, único lugar em que nos apresentamos, até fizemos sessões extras", comenta, ansiosa. "Quanto ao Quebra-Nozes, já é uma tradição. Nós o apresentamos há 15 anos, com apenas algumas interrupções", diz. Será uma maratona, com dois espetáculos e uma ponte aérea. "Dançar é muito prazeroso, quero aproveitar esse bom momento, sem preocupações, não pretendo parar tão cedo", afirma. A dança tem sido uma aliada: há cerca de um mês a primeira bailarina perdeu o marido, o advogado Fabiano Marcozzi, vítima de um derrame. "Foi muito rápido, em menos de 20 dias ele já não estava mais comigo. Ele era meu empresário, companheiro, tudo. Estou cumprindo os contratos que ele havia acertado. Uma bailarina precisa ter disciplina, manter a forma e a concentração. É muito duro o momento de chegar em casa, entretanto estou muito ocupada. Quando parar vou pensar no futuro."

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