Andre Dusek/AE
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Ana, agora ministra

Festa de transmissão de cargo foi a mais ''farofada'' do governo Dilma

Rafael Moraes Moura, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2011 | 00h00

O rapper GOG virou mestre de cerimônia; o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) sacolejou ao lado de mulatas e ritmistas; o calango voador do Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro entrou no auditório; uma senhora ensopada pela chuva resmungou por não ter encontrado Chico Buarque; o agora ex-ministro da Cultura Juca Ferreira emocionou-se na despedida; o pai de santo Doté Francisco d"Ynhasá pediu que os orixás iluminassem o caminho da sucessora de Juca; e, por falar nela, lá foi Ana de Hollanda assumir o cargo, na festa - vulgo cerimônia de transmissão de cargo - mais farofada do governo Dilma, que reuniu embaixadores, políticos, grupos de circo, samba e percussão e quem mais passasse anteontem pelo Museu da República.

Já adotando o tom conciliador do mundo político, Ana enalteceu o trabalho de Juca Ferreira, mesmo tendo pontos de conflito com ele - como a controversa revisão da Lei dos Direitos Autorais, colocada para consulta pública no ano passado. A primeira ministra da Cultura da primeira mulher presidente do Brasil não falou nisso em seu discurso; preferiu enaltecer as políticas públicas da era Lula, prometeu continuidade, observou que a emergente classe C tem consumido, até aqui, mais eletrodomésticos que cultura - e que isso precisa mudar.

"A balança não pode permanecer assim tão desequilibrada. Cabe a nós alargar o acesso da população aos bens simbólicos, porque é necessário democratizar tanto a possibilidade de produzir quanto a de consumir", disse, sob aplausos de uma plateia heterogênea, formada inclusive por colegas dos tempos em que foi secretária de Cultura de Osasco (SP) e vice-presidente do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.

A dama da Cultura aproveitou a ocasião - e a presença de alguns parlamentares - para pedir ajuda ao Congresso: "Vamos aprovar, este ano, nesses próximos meses, o nosso Vale Cultura (subsídio para entrada de cinema, teatro e outros eventos), para que a gente possa incrementar, o mais rapidamente possível, a inclusão da cultura na cesta do trabalhador e da trabalhadora."

Da lista de projetos que envolvem a pasta, destacou o PAC das Cidades Históricas, ações do Mais Cultura, falou até em levar arte para as zonas rurais, uma espécie de Luz Para Todos para o campo. Emotiva, disse que cada artista pode ter a certeza de que seu coração "está batendo por eles" e que isso vai ser traduzido em mais iniciativas, com o ministério ligado às raízes nacionais.

Quando o discurso da ministra chegava às suas últimas linhas, o ministro da Previdência, Garibaldi Alves Filho, não resistiu e caiu no cochilo. "É uma maratona (de posses)", justificou-se. Mais atenta, a cantora Rosemary acredita que a chegada de Ana engrandece a participação feminina na Esplanada. "É uma pessoa muito ligada à área, que tem uma história. Gosto muito da família do Chico", comentou.

Saída. O troca-troca no Ministério da Cultura mobilizou parte da classe artística, que defendeu a permanência de Juca Ferreira. O movimento "Fica, Juca" ganhou corpo, até um manifesto foi divulgado, mas nada disso foi suficiente para convencer Dilma a mantê-lo no posto.

Ao falar para o público, Juca disse que sai com a convicção de ter cumprido o dever. "Aliás, fomos além do dever e das obrigações. Colocamos a cultura no patamar das políticas públicas mais importantes no Brasil." Ao Estado, afirmou que vai estudar os convites que surgirem para definir o futuro.

No final da festa (que custou por volta de R$ 50 mil, segundo a assessoria do ministério), teve show do GOG; uma fila de gente querendo cumprimentar a ministra; burburinho nos corredores do museu - e até quem dissesse que Chico se ausentou para não ofuscar a irmã. "O Chico não costuma sair muito de casa, isso é público e notório. Ele vem depois", afirmou Ana à imprensa. A senhora ensopada pela chuva já o está aguardando.

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