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Amores sobrenaturais

Contracorrente revê preconceitos internos e externos

Marcio Claesen, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2011 | 00h00

Nunca subestime uma obsessão. Ela pode se tornar um filme. Uma conversa com o cineasta peruano Javier Fuentes-León prova isso. O longa-metragem Contracorrente, que estreia hoje, surgiu de um exercício em uma aula de roteiro, em 1996.

De Los Angeles, o cineasta conversou por telefone com o Estado e explicou: "Escrevi uma cena - importante no filme - que se passa numa cozinha e introduz o fantasma na história". Mais tarde, o diretor levaria a ideia aos palcos.

Agora, ela é o centro de seu primeiro longa. Mas com uma diferença. "O triângulo amoroso era entre um pescador, sua mulher e uma prostituta. Era mais uma história de vingança, não tanto de amor. Quando comecei o processo para transformá-la num filme, vi a possibilidade de trocar a prostituta por um homem."

A mudança teve a ver com a própria sexualidade do diretor, que passava por um processo de se aceitar como gay. "O filme é muito pessoal, apesar de não ser autobiográfico, porque minha vida não tem nada a ver com a história do pescador. A trama é totalmente inventada. Mas as viagens internas, as lutas e os medos do personagem principal, os preconceitos internos e externos, eles são próximos a mim."

Escolhido pelo público como melhor filme nos festivais de Sundance e Mix Brasil em 2010, o longa fala de um triângulo amoroso entre um pescador, sua mulher e o amante dele, um pintor. A história se passa numa aldeia e lida com o sobrenatural.

A escolha de um ambiente rural trouxe mais opressão para o protagonista. "O drama do Miguel (Cristian Mercado) seria muito menor se fosse numa cidade grande, pois haveria possibilidade de ele escapar, de buscar um gueto, ser mais livre. No mundo que criei é como se não houvesse saída", informa.

E há outra grande diferença. "Creio que nas zonas rurais a sexualidade é mais cinza. Não há uma comunidade gay que se veste de determinada maneira, que ouve certo tipo de música, não há esses códigos. Para mim, a sexualidade não é branca e preta, é um pouco mais cinza do que queremos que ela seja."

Em um momento em que se discute tanto sobre a homofobia, o diretor tem uma visão sobre a origem desse ódio. "O preconceito está enraizado no medo da diferença, na ignorância. Quando uma pessoa vê um homossexual, ela só pensa no sexo em si, não vê que por trás disso há um ser humano com os mesmos sentimentos, sonhos e desejos que ela."

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