Amores brutos

Facas nas Galinhas leva ao palco os sonhos de uma gente esquecida

O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2012 | 03h10

O título pouco convidativo Facas nas Galinhas poderia ser Lavoura Arcaica, o nome do poderoso romance de Raduan Nassar. São obras que apresentam um universo rural primitivo feito dos ciclos de produção da terra e de uma maneira de viver em que homens e animais estão quase na mesma situação. A peça fez sucesso em Portugal, onde as pequenas propriedades são numerosas e a vida é rústica desde sempre.

A devastadora, mas rentabilíssima agroindústria brasileira de cana, cítricos, soja e pecuária extensiva está a léguas dessa terra entre o bíblico e o medieval. O mau título do bom texto de David Harrower faz lembrar a ficção de José Riço Direitinho, autor português que infelizmente ainda não chegou aqui. É o autor de Breviário das Más Inclinações, onde se revela a existência bruta do campo na descrição do gesto de uma mulher, para evitar a gravidez: "lava-se sempre numa infusão de folhas de arruda, apanhadas ao luar, e bebia tisanas com sementes de funcho e de sargacinhas-dos-montes, para que as regras não lhe faltassem". Ou o que acontece em uma aldeia esquecida: "Numa noite de lua (...). os lobos desceram à aldeia e entraram em alguns quintais, matando quase todas as aves dos galinheiros. Rondaram as portas dos estábulos, atraídos pelo cheiro dos cordeiros, enquanto os cães uivavam de susto e de morte". Esse é o terreno escuro de Facas nas Galinhas, um lugar vago e sem data da Escócia. Território das fábulas. Nele sobrevivem três pessoas: um casal de agricultores e o dono do único moinho de trigo. O marido é rude e o moleiro (o nome que se dá a quem tem o oficio de moer cereais) tem algo atraente para que o triângulo aconteça.

O sedutor lida com uma máquina surgida no começo dos tempos (gregos e romanos usavam moinhos) e tem o dom da escrita. Tudo o que a mulher deseja é exatamente manejar as palavras para definir suas fantasias. Deixa-se envolver porque, além de desconhecer o carinho masculino, o estranho, visto como um criminoso e explorador da labuta alheia, oferece cordialidade e ainda a ensina usar papel, tinteiro e caneta de pena. Algo mágico fora de uma rotina conjugal de ordens e monossílabos grosseiros. O enredo, como é característico das parábolas, constrói-se nas alusões e subtendidos. O escocês David Harrower, nascido em 1966, é claro: "Não uso o realismo. Quero uma linguagem mais pura, mais poética, que significa mais do que aquilo que parece. E descobri isso escrevendo esta peça".

O grupo Barracão Cultural apresenta uma montagem com o impacto da cenografia de Marco Lima sugerindo simultaneamente grades e a roda de moer grãos, imagem reforçada pela iluminação misteriosa de Marisa Bentivegna. Há, no entanto, um descompasso inicial entre essa parte e a representação. Um marido tosco (Cláudio Queiroz) é mostrado como mal humorado, aos gritos, o que acaba por incomodar. Na realidade, ele é apenas um trabalhador pobre, não o neurótico banal ou o clássico bêbado opressor. Já o moleiro (Thiago Andreuccetti) ostenta demais sua face enigmática. Por fim, a mulher (Eloisa Elena) traduz curiosidade com ares e sorrisos simplórios. O experiente diretor Francisco Medeiros consegue, porém, ajustar a representação na segunda parte, quando cada interprete chega a um nível dramático consistente e o jogo cênico sobe com a devida coerência psicológica e a poesia que o dramaturgo desejou. Mesmo assim, o elenco pode se afinar bem mais.

Por uma via transversa, o espetáculo traz ao palco outras possibilidades em arte dramática. Há no momento uma sofreguidão urbanoide na temporada paulistana, verdadeira enchente de casais desajustados de classe média, carregamentos de peças inglesas com gente amalucada por dinheiro e poder, droga, sexo escapista ou agressor. O apocalipse anda fácil. É tudo verdade, mas com um verniz de modismo e reiteração do obvio. José Saramago chegou aos brasileiros com o romance Levantado do Chão, sobre os camponeses da região do Alentejo. Ao apresentar sua historia, ele escreveu que "um escritor é um homem como os outros. Sonha. E o meu sonho foi poder dizer deste livro: isto é o Alentejo". Facas nas Galinhas parece dizer: isso são sonhos de gente esquecida.

Crítica: Jefferson Del Rios

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