Amor terminal, à antiga moda dos românticos

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2011 | 03h08

Inquietos é mais um mergulho de Gus Van Sant no universo jovem - ele que fez uma das mais preciosas radiografias desse mundo um tanto opaco para os adultos que é Elefante, vencedor do Festival de Cinema de Cannes de 2003.

Inquietos é um projeto mais modesto, do ponto de vista formal, que Elefante, ou que outro filme de Van Sant sobre o mundo teen como Paranoid Park. Mas não é menos sensível. Em que pese a evidente preocupação comercial desta produção, com algumas igualmente óbvias concessões, a antena do diretor continua a funcionar em sua prospecção do comportamento dos jovens. E também a sua mão de diretor.

Essas qualidades estão à vista na história do casal de adolescentes que mantém uma bela história de amor contra o pano de fundo da morte. Henry Hopper é Enoch, que mantém o hábito pouco usual de frequentar enterros de desconhecidos. Num deles conhece a mocinha Annabel, vivida por Mia Wasikowska, com seu jeitinho de Mia Farrow em O Bebê de Rosemary.

O tema frequente, quando se fala na adolescência, ou na primeira juventude, é o da solidão. A sensação de estar só contra um mundo que não o compreende é algo que acompanha o jovem como seu pão cotidiano. Basta cada um se lembrar de seus verdes anos. E poder clamar, como Paul Nizan, amigo do peito de Sartre e Merleau-Ponty, morto prematuramente, em seu livro Aden Arábia: "Tenho 20 anos, e que ninguém me diga que é a mais bela idade da vida!".

Nizan tinha razão. Pode ser a mais angustiante das idades, embora ninguém mais velho, com o pensamento turvado pela nostalgia, pareça compreender. Van Sant consegue penetrar nesse universo de angústia chamada precoce. E o faz, aqui, com esses dois jovens incomuns, amadurecidos antes do tempo por experiências terminais. Há, em seu desespero sem remédio, e narrado em tom tão sóbrio, algo da beleza de um Romeu e Julieta, de um Tristão e Isolda, a angústia irremediável de um Werther. Enfim, Van Sant acolhe, em sua história contemporânea e triste, toda a tradição romântica dos amores roídos pelo aniquilamento. E que, por serem breves, parecem, retrospectivamente, os mais puros e intensos. Talvez seja assim mesmo.

Com esse material, e com a compreensão que exibe deste mundo, Van Sant talvez pudesse ter se furtado a certos expedientes dispensáveis, como a música em excesso em algumas partes. Ou o amigo imaginário de Enoch, já ele próprio um camicase para exigir da narrativa essa contrapartida imaginária. Acaba redundante.

Mas são problemas veniais nesse filme que se alimenta muito do talento do seu diretor como dos seus dois principais intérpretes. Filmado em estilo límpido, Inquietos toca pelo desprendimento e simplicidade com que aborda situação tão dura. E exibe bons achados na armação, digamos, conceitual, da história. Assim, não é por acaso que a heroína Annabel seja uma apaixonada por pássaros marinhos e exiba admiração sem limites por Charles Darwin, o pai da teoria da evolução. "Ele simplesmente teve a melhor ideia de todos os tempos", diz a garota.

A ideia de Darwin, sabe-se, questiona a posição à parte do homem na ordem biológica. Um exercício de relativismo precoce, sobre o tamanho de cada um na ordem geral do universo, que Annabel se vê forçada a fazer.

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