Amor que faz rima com ódio

Tratamento cômico rebaixa o tema em peça afiada e com diálogos ferozes

, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2010 | 00h00

Destinada a pôr fim às uniões civis infelizes, a instituição do divórcio poderia ter extinguido com o mesmo golpe um dos assuntos mais batidos da dramaturgia ocidental.

O fato é que, na arte e na vida, o casamento permanece como prática insistente e metáfora privilegiada da intimidade entre os seres humanos. Pode ser agora um vínculo solúvel, transitório, amparado por contratos que procuram garantir a independência econômica das partes envolvidas, mas, ainda assim, as memórias do teto e da cama compartilhados são experiências radicais de interação e alteridade. Indissolúvel é, pois, o rescaldo pegajoso da esperança frustrada.

Na peça Seria Cômico Se Não Fosse Sério, o romancista e dramaturgo de língua alemã Friedrich Dürrenmatt dialoga com a obra do autor sueco August Strindberg, no conjunto uma das mais ferozes críticas à instituição do matrimônio. A alusão de Dürrenmatt, explícita no título original Play Stridberg, anuncia o desígnio de reexaminar o tema do confronto entre cônjuges sob uma ótica inteiramente diversa.

Opressivo e inevitável, causa de ferimentos inconscientes e cicatrizes aparentes, o casamento muda de figura quando o compromisso sagrado (expresso pelo ritual e pela legislação) se dissolve em virtude de novas circunstâncias históricas. Inserido em um código social mais permissivo, o enlace matrimonial torna-se emblemático e, a partir desse alargamento simbólico, deixa de lado o elemento trágico que ensombrecia e dignificava as personagens de Strindberg.

Servidão voluntária, mecanizada pela repetição inevitável do cotidiano, o convívio de uma dupla sob o mesmo teto é apenas uma modalidade da agressividade gratuita que preside as interações humanas. Enfim, o casamento pode ser o mais risível dos arranjos sociais e, como se o ridículo não fosse suficiente, agrava sua insignificância o fato de ser apenas uma entre outras modalidades de tortura que nos distraem do tédio.

Kurt, personagem de ligação entre o casal e o mundo exterior, entreabre uma fresta para o gangsterismo, a corrupção na esfera pública e a ingratidão dos entes queridos de um modo geral. Do lado de fora da torre onde se digladiam marido e mulher, há um idêntico vale-tudo imperando sobre a vida coletiva.

Visto como um jogo que fere e diverte, o pugilato verbal entre Alice e Edgar é repetitivo nos argumentos, impregnado de ira crescente e exaustivo como qualquer combate esportivo. A organização da peça em rounds é, antes de tudo, uma decisão estilística que previne a empatia e nos avisa de que esta dupla em cena não terá a grandeza da catástrofe final que dignifica as vítimas do destino, aniquilando o sofredor ou a causa do sofrimento.

Em Seria Cômico Se Não Fosse Sério não há sequer a fatalidade moderna da psicologia ou a das circunstâncias de classe e os combatentes, livres dessas contrições, entregam-se ao jogo no duplo sentido da palavra: diversão e representação teatral. Antes de ser uma exigência estilística, o tratamento cômico é uma sentença que rebaixa o tema e as personagens, excluindo-os da esfera do drama em que poderiam ainda merecer alguma simpatia ou piedade.

Sob a direção de Alexandre Reinecke, as virtudes propriamente literárias do texto ficam em primeiro plano. Os diálogos, repetitivos no intuito agressivo, mas cada vez mais afiados e precisos no corte, são tratados com minucioso respeito pela sua inteligibilidade. Talvez seja uma questão de dosagem, mas esse tratamento quase reverente conferido a uma peça admirada pelo diretor e pelo elenco obscurece um pouco o niilismo que a inspira e estilo grotesco que a reveste.

Batalha. Correto, lúcido, demonstrativo na organização dos movimentos e nas entonações, o espetáculo sugere uma certa nostalgia do trágico ou, pelo menos, da condenação moral aplicada sobre essa inútil batalha sem vencidos ou vencedores. Ficam bem desenhados com traços finos, quase elegantes, o cinismo e o cálculo das estratégias de Alice e do fleumático visitante. Nas interpretações de Ana Lúcia Torre e Luciano Chirolli inscreve-se a memória do teatro burguês do passado, sobretudo da comédia de adultério do século 19. Antonio Petrin, intérprete do marido, é mais dramático e virulento nas entonações e essa veemência encobre uma faceta útil ao efeito cômico da sua personagem que é o contraste entre a estupidez aparente e a esperteza do manipulador.

Prevalece na interação das três personagens a medida sóbria das peças de conversação, ferinas mas ainda apresentáveis para o público "familiar". Pode ser que o título enganoso, induzindo à seriedade, tenha segurado com rédea o tropel assustador do grotesco.

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